Documentos divulgados pelo Departamento de Justiça dos Estados Unidos na última sexta-feira (30) trouxeram à tona uma troca de e-mails atribuída a Jeffrey Epstein e Steve Bannon com referências ao Brasil durante a campanha presidencial de 2018, incluindo menções a Bolsonaro e a Lula. O material integra um lote de páginas publicado em atendimento a uma lei estadunidense de transparência sobre o caso Epstein.
🔍 Jeffrey Epstein foi um financista norte-americano que se tornou alvo de investigações por abuso e tráfico sexual de adolescentes envolvendo mais de mil vítimas. Em 2008, declarou-se culpado em acusações estaduais na Flórida e, em 2019, foi preso novamente sob denúncias federais de tráfico sexual de menores. Epstein morreu na prisão em agosto daquele ano, em um caso classificado oficialmente como suicídio.
Segundo informações baseadas nesses arquivos, uma das mensagens destacadas é atribuída a Epstein em 8 de outubro de 2018, no dia seguinte ao primeiro turno, quando Bolsonaro e Fernando Haddad avançaram para a segunda etapa da disputa. De acordo com o Tribunal Superior Eleitoral, Bolsonaro teve 49.276.990 votos (46,03% dos válidos) e Haddad 31.342.005 (29,28%) no 1º turno.
Na mensagem atribuída a Epstein, o então candidato é descrito como alguém que “mudou o jogo”, em leitura favorável a posições duras sobre imigração, defesa de maior autonomia política e foco em retomada econômica. “Bolsonaro mudou o jogo. Nenhum refugiado quer entrar. Bruxelas não lhe diz o que fazer. Ele só precisa reativar a economia. MASSIVO”
Os e-mails também registrariam conversas sobre a possibilidade de Bannon atuar como conselheiro, de forma direta ou informal, junto ao grupo político ligado a Bolsonaro. Em um trecho, Bannon pergunta se deveria aceitar o convite. “Eu sou muito, muito próximo desses caras. Eles me querem como conselheiro. Devo fazer isso?”. Epstein responde: “Se você está confiante na vitória [de Bolsonaro], pode ser bom para sua marca se você fosse visto lá“.
Em agosto de 2018, Bannon havia se encontrado com Eduardo Bolsonaro em Nova York (EUA) em uma festa de comemoração de seu aniversário. O ex-deputado federal chegou a afirmar que Bannon era um entusiasta de Jair Bolsonaro e que os dois manteriam contato “para somar forças”. No entanto, apesar de Bannon ter declarado apoio a Bolsonaro, o ex-presidente negou publicamente parceria formal com Bannon.
“Não gostei de Bolsonaro chamando qualquer associação com você de ‘fake news’, embora eu compreenda”, diz uma pessoa cujo nome aparece sob tarjas, mas, com base em conversas anteriores, possivelmente é Epstein . “Eu preferiria um boné MBGA [possível menção a Make Brazil Great Again]”, continua. Bannon responde: “Tenho de manter a coisa do Jair nos bastidores. Meu poder vem de não ter ninguém me defendendo”.

No mesmo conjunto de documentos, há trechos em que Epstein relata conversas envolvendo o filósofo Noam Chomsky e faz referência a Lula. Chomsky mantinha uma relação próxima com Epstein, e teria usado habilidades financeiras para ajudá-lo e até oferecido estadias em suas casas
Segundo os e-mails, Epstein disse que Chomsky teria feito contato telefônico com Lula quando o petista estava preso. Essa informação foi negada pela esposa de Chomsky, Valeria Chomsky, e também pelo Palácio do Planalto. “
Epstein teria aconselhado Bannon a evitar falar de Bolsonaro quando se encontrasse com Chomsky, porque a esposa do filósofo é brasileira e o casal seria amigo de Lula. “Eles [o casal Chomsky] são amigos do Lula. Mas ele é uma figura icônica e não se deve perder a chance de conversar sobre história e política. Vou colocar vocês em contato por e-mail, para que possam se coordenar diretamente.”
Epstein teria alertado Bannon sobre o tipo de questionamento que Chomsky faria, dizendo que “ele vai querer saber se você está do lado dos pequenos: corte de impostos, ataques à saúde pública e as ameaças bolsonaristas aos trabalhadores organizados”, teria dito Epstein a Bannon, antes do encontro.
