Uma ferramenta de inteligência artificial desenvolvida por pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP), em parceria com a Universidade de Uppsala, na Suécia, demonstrou capacidade de identificar um dos tipos mais graves de infarto e indicar qual artéria do coração está obstruída. A tecnologia analisa dados de um eletrocardiograma e poderá ajudar equipes médicas a reconhecer casos de maior risco com mais rapidez.
O estudo foi publicado na revista científica Nature Communications e divulgado pela Agência FAPESP. O sistema foi desenvolvido para identificar o infarto causado por uma obstrução coronariana aguda, situação em que uma artéria responsável por levar sangue ao músculo cardíaco fica totalmente ou quase totalmente bloqueada.
Nesses casos, a interrupção do fluxo sanguíneo impede que o oxigênio chegue adequadamente ao coração. Sem atendimento rápido para restabelecer a circulação, parte do músculo cardíaco pode sofrer danos irreversíveis.
Tecnologia analisa eletrocardiograma
O modelo utiliza informações digitais do eletrocardiograma (ECG) de 12 derivações, exame comum em atendimentos de emergência e que registra a atividade elétrica do coração por diferentes ângulos.
Um dos diferenciais da ferramenta é a capacidade de reconhecer alterações discretas no traçado do exame, inclusive em situações nas quais não aparecem os sinais clássicos normalmente associados ao infarto.
Atualmente, alguns casos de obstrução grave não apresentam o chamado supradesnivelamento do segmento ST, alteração que costuma facilitar a identificação do problema. Nessas situações, os médicos precisam considerar sintomas, exames de sangue, como a dosagem de troponina, e outros procedimentos para confirmar o diagnóstico.
A inteligência artificial foi desenvolvida justamente para auxiliar na identificação desses quadros menos evidentes e estimar a localização da artéria responsável pelo bloqueio.
Mais de 540 mil exames foram utilizados
Para treinar o sistema, os pesquisadores utilizaram 540.372 eletrocardiogramas de 225.884 pacientes atendidos em serviços de emergência na Suécia, entre 2005 e 2016.
Os resultados foram comparados com exames de cateterismo cardíaco, procedimento que permite visualizar as artérias coronárias e identificar obstruções.
Depois da etapa de treinamento, o modelo foi avaliado com dados de 401 pacientes atendidos no Instituto do Coração (InCor), em São Paulo, entre 2017 e 2024. Também foram utilizados bancos de dados públicos europeus e informações da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).
Na avaliação brasileira, o desempenho do modelo foi considerado promissor. Segundo os pesquisadores, a ferramenta apresentou indicadores de desempenho de 96% nos casos com alterações clássicas de supra-ST e de 82% nos casos sem essas alterações evidentes. Esses resultados mostram o potencial do sistema, especialmente diante de situações que representam maior dificuldade para a identificação do infarto pelo eletrocardiograma convencional.
IA pode ajudar em decisões de emergência
A expectativa dos pesquisadores é que, futuramente, o sistema consiga analisar os resultados do eletrocardiograma em tempo real, ajudando as equipes a reconhecer pacientes que precisam de encaminhamento urgente para cateterismo.
A identificação antecipada pode contribuir para agilizar a restauração do fluxo sanguíneo, procedimento conhecido como reperfusão, e reduzir o tempo entre o início do atendimento e o tratamento da obstrução.
A ferramenta também poderá auxiliar profissionais que atuam em ambulâncias. Em determinadas situações, a equipe precisa avaliar rapidamente se o paciente deve receber medicamentos trombolíticos, utilizados para dissolver coágulos e tentar restabelecer a circulação. Embora possam salvar vidas, esses medicamentos apresentam riscos, entre eles a possibilidade de sangramentos graves.
Tecnologia ainda não está disponível para uso clínico
Apesar dos resultados, os pesquisadores ressaltam que o sistema ainda é experimental e não substitui a avaliação dos profissionais de saúde. A definição do diagnóstico e do tratamento continua sendo responsabilidade da equipe médica, que deve considerar o quadro clínico e os demais exames do paciente.
O próximo passo é ampliar a validação da ferramenta no InCor, avaliando seu funcionamento e suas limitações em situações reais de atendimento. Para que possa ser incorporada à rotina dos serviços de saúde, a tecnologia também precisará passar pelas etapas regulatórias e obter aprovação da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).
A pesquisa reúne instituições brasileiras e estrangeiras e representa uma aplicação da inteligência artificial no apoio ao diagnóstico de doenças cardiovasculares, especialmente em situações de emergência nas quais a rapidez da identificação pode influenciar o atendimento.

