Uma vida que começou no interior paulista, atravessou décadas de trabalho no campo e foi marcada pela criação de dez filhos ganhou uma homenagem especial em Penápolis. Aos 102 anos, Doralice de Sousa recebeu a Medalha Centenária da Câmara Municipal, em reconhecimento à sua trajetória de dedicação à família e superação de dificuldades.
A homenagem foi realizada na sessão legislativa de segunda-feira (26), com a participação do presidente da Câmara, vereador Carlos Alberto Feltrin (MDB). Acompanhada pela filha Aparecida, Doralice recebeu a honraria diante dos presentes.
Por trás da medalha está uma história que acompanha parte das transformações vividas pelo interior de São Paulo ao longo do último século.
Uma infância marcada pelo trabalho na lavoura
Doralice nasceu em 15 de julho de 1924, filha de Alfredo Francisco Furtado e Guaraciaba Maria de Sousa. Seu nascimento foi registrado no município de São Pedro, no interior paulista.
A infância e a adolescência ocorreram em uma época em que o trabalho rural fazia parte da rotina de muitas famílias. Aos 14 anos, ela já trabalhava em plantações de algodão e amendoim.
As atividades no campo continuariam presentes em diferentes momentos de sua vida, incluindo o trabalho em lavouras de café, cultura que também marcou a história econômica de São Paulo.
Aos 17 anos, casou-se com Joaquim Machado. O casal formou uma família numerosa, com dez filhos, e Doralice passou a dividir suas responsabilidades entre o trabalho e os cuidados com a casa.
Na década de 1960, mudou-se para Penápolis, onde continuou trabalhando em propriedades rurais da região e também exerceu atividades como empregada doméstica.
A viuvez aos 50 anos e a responsabilidade de criar os filhos
Entre as dificuldades enfrentadas ao longo da vida, uma das mais marcantes ocorreu quando Doralice ficou viúva, aos 50 anos.
A perda do marido trouxe uma nova realidade para a família. Com filhos ainda pequenos, ela precisou continuar trabalhando e assumir a responsabilidade pelo sustento e pela criação dos que dependiam de seus cuidados.
A trajetória foi marcada por limitações financeiras e pelo esforço para garantir melhores condições de vida à família.
Uma de suas maiores conquistas, segundo o relato divulgado pela Câmara Municipal, foi conseguir adquirir a própria casa, resultado de anos de trabalho.
Doralice não teve a oportunidade de aprender a ler e escrever. Isso, porém, não a impediu de desenvolver habilidades importantes para enfrentar as necessidades do cotidiano. Com bom humor, costuma demonstrar orgulho de sua facilidade para contar dinheiro.
O que Doralice diz sobre chegar aos 102 anos
Depois de tantas décadas de trabalho, mudanças e desafios familiares, Doralice mantém uma maneira simples de explicar o que considera importante para viver bem.
Ao ser questionada sobre o segredo para chegar aos 102 anos, respondeu: “Tem que andar sempre e desejar o bem ao próximo”.
A frase, registrada no relato divulgado pela Câmara, resume dois valores que ela procura preservar: manter-se em movimento e tratar as outras pessoas com bondade.
Segundo a publicação institucional, familiares e amigos destacam seu bom humor e sua disposição.
A história de Doralice também chama a atenção por representar uma geração de mulheres que conciliou o trabalho rural, a maternidade e a responsabilidade pelo sustento familiar, muitas vezes com acesso limitado à educação formal.
Homenagem estava prevista para agosto
O reconhecimento público à trajetória de Doralice estava inicialmente previsto para 7 de agosto, quando a Câmara Municipal organizou uma solenidade para homenageá-la ao lado de Rosália Marques de Oliveira, outra moradora centenária de Penápolis.
Na ocasião, a entrega da medalha a Doralice precisou ser adiada por motivos de saúde, conforme informou o Legislativo.
A homenagem foi realizada posteriormente, em 26 de outubro, durante uma sessão ordinária da Câmara.
A Medalha Centenária foi instituída em Penápolis pelo Decreto Legislativo nº 45, de 7 de outubro de 2002, por iniciativa do então vereador Zeca Monteiro.
A honraria é destinada a moradores que alcançam os 100 anos de idade, como forma de reconhecer suas trajetórias e contribuições para a comunidade.
Agora, aos 102 anos, Doralice integra a relação de moradores homenageados por uma vida que atravessou gerações e preserva lembranças de um período de profundas mudanças no interior paulista.
A história completa da homenagem e o registro institucional estão disponíveis no site oficial da Câmara Municipal de Penápolis.

