Enquanto a Venezuela enfrenta as consequências de um dos terremotos mais devastadores de sua história recente, uma equipe especializada do Corpo de Bombeiros da Polícia Militar do Estado de São Paulo iniciou, nesta sexta-feira (26), uma missão humanitária para reforçar as operações de busca e salvamento nas regiões mais atingidas pelo desastre.
A força-tarefa paulista é composta por 11 bombeiros militares, dois médicos militares, um representante da Defesa Civil Estadual e dois cães de busca treinados para localizar vítimas soterradas. O grupo integra a missão brasileira formada por 36 especialistas dos estados de São Paulo, Paraná e Minas Gerais, que atuarão em conjunto com as equipes venezuelanas.
Além dos profissionais, a comitiva transporta equipamentos para resgate em estruturas colapsadas, materiais médicos, ferramentas de alta precisão, barracas, alimentos, sistemas de comunicação e toda a infraestrutura necessária para permanecer em operação sem depender dos recursos locais.
Segundo a comandante da equipe paulista, major Daniela Santos Oliveira, a autossuficiência é um dos principais pilares da missão.
“Nós estamos indo como uma equipe de busca e salvamento urbano totalmente autossuficiente. Tudo o que estamos levando é para que não precisemos de absolutamente nada no local. Quando chegamos para ajudar alguém, não podemos dar trabalho para quem já está enfrentando uma tragédia. A autossuficiência é a palavra-chave dessa missão”, afirmou.
A oficial explicou que o grupo instalará uma base operacional própria e utilizará equipamentos específicos para acessar edificações destruídas e localizar pessoas presas sob os escombros.
Experiência em grandes tragédias
A equipe reúne profissionais com ampla experiência em desastres naturais e acidentes de grande proporção. A major Daniela participou das operações internacionais após o terremoto na Turquia, em 2023, além das ações durante as enchentes no Rio Grande do Sul e do rompimento da barragem de Brumadinho, em Minas Gerais.
Segundo ela, essas experiências demonstraram que o preparo emocional é tão importante quanto a qualificação técnica.
“As missões anteriores nos ensinaram que precisamos estar muito preparados psicologicamente, além de manter toda a estrutura de autossuficiência. Foi essa experiência que nos trouxe novamente aqui, com capacidade técnica para atuar em uma situação tão complexa.”
Entre os integrantes também está a capitão médica Fabiana Maria Ajjar, do Comando de Aviação da Polícia Militar, que já participou de outras missões humanitárias no Brasil e no exterior.
Ela explica que cada operação exige planejamento específico de acordo com as condições encontradas.
“Cada cenário exige uma estratégia diferente. Na Turquia enfrentamos frio intenso e doenças respiratórias. Agora estamos indo para uma região quente, com outros riscos epidemiológicos. Estamos levando materiais e protocolos adequados para proteger toda a equipe e garantir o atendimento necessário.”
Para a médica, a mobilização representa um esforço conjunto em favor da preservação da vida.
“É uma força nacional em prol de outro país. Nós gostaríamos de receber ajuda da mesma forma se estivéssemos nessa situação. É oferecer ao próximo aquilo que gostaríamos de receber.”
Cães de busca serão fundamentais nas operações
Dois cães especializados integram a missão brasileira. Entre eles está Malina, uma pastor-belga malinois de cinco anos, treinada para localizar vítimas em cenários de desabamento. Também embarca a cadela Kiara, que participará da operação como parte de seu treinamento em ocorrências reais.
O condutor de Malina, sargento Laercio Leres, participou da missão brasileira enviada à Turquia em 2023 e destaca que os cães exercem papel decisivo nas buscas.
“As equipes de resgate não atuam sem os cães de busca. Eles conseguem eliminar áreas onde não há vítimas, delimitar regiões prioritárias e até indicar exatamente onde uma pessoa está. Em terremotos, existe uma possibilidade maior de encontrar sobreviventes porque se formam espaços onde as pessoas podem permanecer vivas por alguns dias.”
A cadela Malina já participou de diversas ocorrências de destaque. Em fevereiro deste ano, localizou com vida uma pessoa desaparecida em uma área de mata em Ribeirão Pires, após outras equipes realizarem buscas sem sucesso.
Segundo o sargento, participar de uma missão internacional representa um dos momentos mais importantes da carreira de um profissional especializado em salvamento.
“É o ápice da nossa profissão. Poder ajudar pessoas em uma situação como essa é algo muito significativo. Além disso, essas missões fortalecem nossa experiência para responder a grandes tragédias onde quer que elas aconteçam.”
Estrutura completa para atuação imediata
A porta-voz do Corpo de Bombeiros paulista, capitão Karoline Burunsizian, reforçou que toda a equipe embarca preparada para iniciar os trabalhos assim que chegar ao território venezuelano.
“A equipe é totalmente autossuficiente. Não vamos depender de nenhum recurso daquele país e nem ser mais um problema para eles resolverem em meio a tantos desafios. Estamos levando profissionais treinados, certificados internacionalmente e equipamentos especializados para operações de busca e salvamento em estruturas colapsadas.”
A previsão é de que a missão permaneça cerca de 15 dias na Venezuela, período em que os especialistas brasileiros atuarão no apoio às buscas por sobreviventes, no atendimento às vítimas e na cooperação técnica com as autoridades locais responsáveis pela resposta ao desastre.

