O jornal britânico Financial Times afirmou, em reportagem publicada nesta segunda-feira (25), que o filme Dark Horse, inspirado na trajetória política do ex-presidente Jair Bolsonaro, tornou-se um problema para a pré-candidatura presidencial do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ). A publicação classificou a produção como uma “comédia de erros” e apontou que a controvérsia sobre o financiamento do longa ampliou o desgaste político do filho mais velho do ex-presidente.
A crise ganhou força após revelações sobre negociações envolvendo Flávio Bolsonaro e o banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master. Segundo reportagens publicadas nas últimas semanas, Vorcaro teria se comprometido a financiar parte da produção. O Intercept Brasil informou ter obtido mensagens, documentos e áudios sobre a negociação, que teria previsto cerca de R$ 134 milhões para o projeto. Desse total, aproximadamente R$ 61 milhões teriam sido enviados entre fevereiro e maio de 2025.
Flávio Bolsonaro confirmou ter se reunido com Vorcaro, inclusive após o surgimento de problemas judiciais envolvendo o banqueiro, mas negou qualquer irregularidade. O senador afirmou que sua relação com o empresário se limitou a uma tratativa de investimento para o filme sobre o pai. Segundo ele, um encontro no fim de 2025 teria servido para encerrar as conversas, após o agravamento da situação de Vorcaro.
Daniel Vorcaro foi ligado ao caso do Banco Master, instituição liquidada em meio a suspeitas de fraudes em carteiras de crédito. O banqueiro voltou a ser preso em março de 2026, acusado de subornar um ex-diretor do Banco Central. Nesse contexto, a participação dele em tratativas para financiar Dark Horse passou a ser explorada por adversários políticos e analisada como um risco eleitoral para Flávio Bolsonaro.
Dirigido pelo cineasta americano Cyrus Nowrasteh, o filme tem Jim Caviezel no papel de Jair Bolsonaro. A produção é apresentada como um thriller político sobre a ascensão do ex-presidente ao poder em 2018. A trama inclui cenas relacionadas à facada sofrida durante a campanha, elementos religiosos voltados ao eleitorado cristão conservador e uma narrativa de enfrentamento ao sistema político tradicional.
Segundo o Financial Times, a polêmica surgiu em um momento delicado para Flávio, apontado como o nome do bolsonarismo para disputar a Presidência em outubro de 2026. O jornal britânico relaciona o caso à tentativa do senador de se apresentar como sucessor político do pai, hoje impedido de concorrer e condenado pelo Supremo Tribunal Federal.
Jair Bolsonaro foi condenado pelo STF, em setembro de 2025, a 27 anos e três meses de prisão por crimes relacionados à tentativa de golpe de Estado após a derrota nas eleições de 2022. Em março de 2026, o ex-presidente passou a cumprir prisão domiciliar humanitária por motivo de saúde.
Além das dúvidas sobre financiamento, Dark Horse já acumulava outras controvérsias antes mesmo da estreia. Há denúncias sobre condições precárias de trabalho no set de filmagem e questionamentos envolvendo o uso não autorizado de uma música atribuída à cantora Beyoncé. A produtora responsável pelo longa negou ter recebido dinheiro de Vorcaro, embora Flávio tenha admitido que buscou financiamento para o projeto.
O custo estimado da produção também passou a alimentar questionamentos. Segundo a Reuters, embora o orçamento total de Dark Horse não tenha sido oficialmente divulgado, o valor prometido por Daniel Vorcaro, de US$ 24 milhões, conforme revelado pelo Intercept Brasil, colocaria o longa entre as produções brasileiras mais caras já realizadas. Flávio Bolsonaro afirmou a jornalistas, em Brasília, que não conhecia todos os detalhes do orçamento, mas estimou que, além do investimento inicial, o filme teria custado cerca de US$ 16 milhões.
A cifra chama atenção quando comparada a produções nacionais recentes de grande repercussão. O Agente Secreto, representante brasileiro no Oscar, teria custado cerca de US$ 5 milhões. Já Ainda Estou Aqui, de Walter Salles, vencedor do Oscar no ano anterior, teve orçamento estimado em US$ 9 milhões, segundo a agência. A Reuters também citou que Sound of Freedom, outro filme estrelado por Jim Caviezel, teve custo de US$ 14,5 milhões, de acordo com o Wall Street Journal. A comparação ajuda a explicar o argumento de apoiadores de que o valor de Dark Horse estaria mais próximo dos padrões de Hollywood do que da média do cinema brasileiro.
A repercussão ocorre em um ambiente eleitoral ainda em formação, mas já marcado por pesquisas que indicam impacto negativo para Flávio Bolsonaro após a divulgação das ligações com Vorcaro. Levantamento Datafolha mostrou Lula à frente de Flávio em uma simulação de segundo turno, por 47% a 43%, depois de pesquisa anterior apontar empate entre os dois. Outro levantamento, da AtlasIntel/Bloomberg, registrou vantagem de Lula de 48,9% a 41,8%.
Apesar do desgaste, aliados do bolsonarismo avaliam que o filme ainda pode ter alcance político no Brasil e no exterior. O ex-estrategista da Casa Branca Steve Bannon disse ao Financial Times que pretende ajudar na divulgação da obra nos Estados Unidos. A presença de Jim Caviezel, ator associado ao público conservador americano, é vista por apoiadores como um fator capaz de ampliar a repercussão internacional do longa.
Para o Financial Times, no entanto, a produção que poderia servir como peça de promoção da imagem de Jair Bolsonaro passou a obrigar Flávio a dar sucessivas explicações públicas. Na avaliação do jornal, o caso deslocou o debate da narrativa heroica pretendida pelo filme para dúvidas sobre financiamento, vínculos políticos e riscos eleitorais no entorno da pré-campanha.
