A Raízen, uma das maiores empresas de energia do Brasil e maior produtora mundial de etanol de cana, protocolou na manhã desta quarta-feira (11) um pedido de recuperação extrajudicial para reestruturar aproximadamente R$ 65,1 bilhões em dívidas financeiras. O movimento é o maior desse tipo na história do país .
Controlada pelo grupo Cosan e pela petroleira Shell, cada uma com 44% das ações com direito a voto, a companhia conseguiu a adesão de credores que representam mais de 47% das dívidas quirografárias — aquelas sem garantia real —, percentual suficiente para protocolar o pedido na Comarca da Capital de São Paulo .
Como funciona o processo
Na recuperação extrajudicial, diferente da judicial, a empresa mantém o controle operacional enquanto negocia diretamente com os credores. A Raízen terá agora um prazo de 90 dias, a partir do processamento do pedido, para obter o percentual mínimo necessário à homologação do plano pela Justiça. Caso consiga, os novos termos passam a valer para 100% dos créditos incluídos na negociação .
A empresa deixou claro que o pedido tem escopo estritamente financeiro e não afeta as operações. Dívidas e obrigações com clientes, fornecedores, revendedores e parceiros de negócios permanecem vigentes e continuarão sendo cumpridas normalmente .
O que pode mudar
O plano de reestruturação pode incluir uma combinação de medidas, como capitalização por parte dos acionistas, conversão de parte das dívidas em participação acionária na companhia, substituição de créditos por novos títulos de dívida, reorganizações societárias para segregar parte dos negócios e venda de ativos .
Nos últimos meses, a Raízen já havia iniciado um processo de desinvestimentos, com a venda de usinas como a Continental e a Santa Elisa, movimentando cerca de R$ 4,25 bilhões .
O que levou à crise
A trajetória da Raízen até o pedido de recuperação extrajudicial é marcada por uma combinação de fatores que se agravaram nos últimos trimestres .
A empresa investiu pesadamente em expansão, com cerca de R$ 11 bilhões aplicados em novas plantas de etanol de segunda geração (E2G) e aquisições estratégicas, financiadas com dívida em um momento de juros elevados — a Selic atualmente gira em torno de 15% ao ano .
Ao mesmo tempo, condições climáticas adversas, como secas e queimadas, afetaram a produtividade das lavouras de cana, reduzindo a moagem e impactando o EBITDA da companhia. O prejuízo acumulado nos últimos três trimestres chegou a R$ 19,8 bilhões .
A dívida líquida saltou de R$ 38,6 bilhões para R$ 55,3 bilhões em um ano, um crescimento de 43,5%. A alavancagem atingiu 5,3 vezes o EBITDA, nível considerado elevado para o setor .
A situação levou as principais agências de classificação de risco — Fitch, S&P Global e Moody’s — a rebaixarem a nota da Raízen, retirando o grau de investimento da companhia .
Impacto no mercado
As ações da Raízen (RAIZ4) acumulam queda de mais de 70% nos últimos 12 meses e chegaram a ser negociadas abaixo de R$ 0,50 nesta quarta-feira, com desvalorização de 3,85% no pregão . O valor de mercado da empresa é de aproximadamente R$ 5,38 bilhões.
Analistas do Bradesco BBI avaliam que a situação é crítica e não há “solução mágica”, enquanto o Goldman Sachs pondera que o movimento não deve surpreender investidores, já que a empresa vinha sinalizando a possibilidade de reestruturação .
O que diz a empresa
Em nota oficial, a Raízen afirmou que a proposta foi estruturada em diálogo com os credores e tem como objetivo “estabelecer um ambiente jurídico adequado para a negociação e implementação de ajustes em determinadas obrigações financeiras, no âmbito da estratégia da companhia de otimização de sua estrutura de capital” .
A empresa reforçou que “todas as operações da companhia continuam sendo conduzidas normalmente, incluindo o atendimento a clientes, a relação com fornecedores e a execução de seus planos de negócios” .
Com mais de 45 mil colaboradores, 15 mil parceiros de negócios e 35 usinas espalhadas pelo país, a Raízen é dona da marca Shell no Brasil, com cerca de 8 mil postos de combustíveis, e atua na produção de açúcar, etanol e bioenergia .
O desenrolar do processo nos próximos 90 dias definirá o futuro da gigante do setor energético brasileiro, em um movimento que é acompanhado de perto por investidores, credores e todo o mercado.
