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A polilaminina regenera a medula espinal? É preciso deixar a ciência decidir

por Fabricio Oliveira
01/03/2026 às 11:00
em COTIDIANO
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Walace Gomes Leal, Universidade Federal do Oeste do Pará (UFOPA)

O Brasil observa, atualmente, uma intensa divulgação sobre a polilaminina, substância ainda em estudo, frequentemente apresentada como uma terapia revolucionária e definitiva para a lesão da medula espinal. É fundamental esclarecer que questionar tais afirmações não significa desmerecer a pesquisa ou a molécula em si, que pode, de fato, ter um potencial futuro.

No entanto, é necessário pontuar que, até o momento, os dados divulgados sobre a polilaminina referem-se a estudos realizados apenas em cães, sem publicações em revistas científicas de alto impacto ou revisão por pares que sustentem as alegações de cura. Faltam, portanto, algumas etapas para investigar os efeitos desejáveis e indesejáveis dessa substância.

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A ciência exige que o entusiasmo seja temperado pelo rito, seguindo os protocolos rigorosos exigidos por agências reguladoras como a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), a FDA (Food and Drug Administration dos Estados Unidos) e a EMA (European Medicines Agency), garantindo a segurança dos pacientes submetidos aos procedimentos.

O método científico não é um obstáculo ao progresso da ciência nem às inovações na medicina, mas a sua única garantia real de segurança e eficácia. Ele se baseia em um processo rigoroso de verificação que transformou a medicina moderna, permitindo-nos separar hipóteses promissoras ou terapias pseudocientíficas de tratamentos efetivos.

Como a neurociência avança

Historicamente, a neurociência viveu sob o dogma de um livro escrito pelo genial histologista e neuroanatomista espanhol Ramón y Cajal, ganhador do prêmio Nobel de Fisiologia e Medicina em 1906, que no início do século XX sentenciou que no sistema nervoso central (SNC) “tudo poderia morrer, mas nada poderia ser regenerado”. Essa visão determinista estagnou o campo por décadas, até que, nos anos 1980, Albert Aguayo provocou uma mudança de paradigma ao demonstrar que o problema não era a incapacidade intrínseca dos neurônios, mas o ambiente hostil da lesão. Desde então, a ciência busca formas de tornar esse ambiente propício à reconexão nervosa.

Em uma revisão recente publicada no periódico Regenerative Medicine Reports, discuto abordagens que estão seguindo estritamente o método científico. O conceito de relé neural, por exemplo, utiliza o transplante de células progenitoras neurais em matrizes de fibrina para formar novos circuitos que servem como uma “ponte” funcional, permitindo que os impulsos contornem a lesão. Trabalhos seminais, como os de Paul Lu e Mark Tuszynski da Universidade da Califórnia em San Diego (UCSD), nos Estados Unidos, em andamento desde 2012, demonstraram uma regeneração axonal sem precedentes em modelos de roedores e primatas. Publiquei com eles um artigo em 2019, detalhando os circuitos intrínsecos dentro do enxerto de progenitores.

Outra abordagem promissora é a pesquisa sobre os organizadores sinápticos artificiais, que são moléculas desenhadas para promover a formação de novas conexões (sinapses) entre neurônios sobreviventes, oferecendo uma via química para a recuperação da rede neural. Mais uma frente de vanguarda é a estimulação elétrica subdural, técnica que reativa circuitos medulares dormentes abaixo do nível da lesão, permitindo que pacientes recuperem movimentos voluntários, de acordo com estudos recentes.

Questões a serem esclarecidas

A aplicação de substâncias como a polilaminina diretamente na medula espinal, considerando que é um polímero modificado, sem o devido respaldo científico e clínico, tem o potencial para riscos aos pacientes. O ambiente da lesão é extremamente sensível. Uma injeção inadequada pode desencadear uma resposta inflamatória exacerbada ou neurotoxicidade, levando à morte de neurônios que ainda estavam funcionais.

Há também o perigo mecânico da formação de microtraumas que estimulam a cicatriz glial ou o surgimento de siringomielia (cistos na medula), que podem causar dor crônica e perda funcional progressiva. Além disso, o crescimento axonal sem a orientação correta, algo que o relé neural e os organizadores sinápticos tentam controlar, pode resultar em conexões aberrantes, gerando dor neuropática intratável ou espasticidade severa.

Todos queremos que pacientes paraplégicos e tetraplégicos andem de novo e esta é uma das fronteiras mais desafiadoras e emocionantes da medicina, considerando que a desconexão catastrófica entre cérebro e medula induz diversas sequelas sensoriais e motoras. No entanto, oferecer promessas sem o respaldo do método científico e de ensaios clínicos padronizados coloca em risco a integridade dos pacientes.

A polilaminina deve trilhar o mesmo caminho de transparência e validação das terapias supramencionadas. Somente respeitando o escrutínio científico e o rigor das agências regulatórias é que poderemos transformar a esperança em realidade clínica segura. Devemos, portanto, permitir que o método científico e os resultados dos ensaios clínicos, duplo-cegos e randomizados, decidam o futuro da medicina regenerativa. A polilaminina pode ter a forma de cruz, e isso já seria uma discussão de psicologia da Gestalt, mas ela não é a molécula de Deus.

Walace Gomes Leal, Neurocientista e professor do Instituto de Saúde Coletiva, Universidade Federal do Oeste do Pará (UFOPA)

This article is republished from The Conversation under a Creative Commons license. Read the original article.

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