Em Atibaia, no interior de São Paulo, há uma casa onde o cotidiano parece desobedecer aos manuais do amor tradicional. Ali, sete adultos dividem o mesmo teto, a mesma rotina e uma ideia pouco comum de família. Em breve, serão oito. A empresária Laís Rocha, 27 anos, está grávida do primeiro filho e compartilha o marido, o motoboy Ivan Rocha, 36, com outras cinco mulheres — todas assumidas como companheiras, todas moradoras da mesma casa.
O que em muitos lares seria sinônimo de conflito, ali é tratado como organização. Eles se definem como uma “família poliafetiva em V”: Ivan é o elo central, e as mulheres se relacionam afetivamente com ele, mas não entre si. Entre elas, segundo Laís, há amizade, parceria e divisão de responsabilidades.
“Esse tipo de relacionamento não é para qualquer um”, diz Laís. “É uma desconstrução e uma reconstrução.” A frase poderia estar escrita na porta da casa, como aviso aos visitantes e, talvez, à própria sociedade, que ainda tropeça ao tentar nomear arranjos afetivos fora do padrão.
Além de empresária e futura mãe, Laís administra o perfil @trisalrochas no Instagram, que reúne mais de 258 mil seguidores. Lá, o grupo transforma a intimidade em narrativa pública: o dia a dia do “motoboy e suas esposas”, as escolhas afetivas, as provocações e a rotina doméstica de uma família que se prepara para receber um bebê.
A gravidez, conta Laís, foi planejada por todos. Em junho de 2025, ela havia engravidado, mas perdeu o bebê. Desde então, a chegada de uma criança passou a ser um desejo coletivo. As demais companheiras também pretendem ser mães no futuro; a ideia é que, depois, outra esposa viva a experiência da gestação. “Aqui em casa, elas me ajudam com absolutamente tudo”, afirma.
No papel, porém, só existe um casamento. A legislação brasileira não reconhece uniões civis com mais de duas pessoas, e Ivan é oficialmente casado apenas com Laís. Ainda assim, o grupo planeja uma cerimônia simbólica para novembro. Todas de branco, padrinhos formados por outros trisais e famílias poliafetivas, como se fosse uma resposta estética à impossibilidade jurídica.
A história desse arranjo começou de forma menos coletiva. Laís e Ivan se conheceram pelo Facebook há dez anos. Em menos de um mês, ele falava em casamento; ela, insegura, terminou. Ivan seguiu outro caminho, casou-se, e foi a então esposa quem propôs uma experiência a três. O trisal viveu junto por dois anos, em segredo. Depois vieram separações, reencontros e, por fim, o casamento oficial entre Laís e Ivan.
Três meses após a união formal, foi Laís quem sugeriu ampliar a relação. A experiência anterior, diz ela, havia deixado marcas positivas. Aos poucos, novas mulheres foram chegando — algumas por aplicativos, outras pelas redes sociais — e ficando. Ana Carolina foi a primeira a se juntar de forma estável; depois vieram Natália, Camili, Maria Eduarda e Juliana. Nem todas aparecem com frequência nas redes: a exposição, explicam, também tem seus limites.
Apesar da curiosidade que desperta, o grupo faz questão de pontuar regras claras. As mulheres não se relacionam entre si de forma amorosa; todas são heterossexuais e mantêm vínculo apenas com Ivan. Entre elas, garantem, o que existe é companheirismo — uma espécie de pacto silencioso para que a casa funcione.
Enquanto o país debate novos modelos de família e o direito ainda caminha lentamente, a vida segue naquela casa de Atibaia. Entre panelas, agendas divididas e planos para o futuro, o amor ali não se resume a dois. Ele se espalha, se organiza e, em breve, ganhará um berço.
