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Dia 8 e março e o Direito à verdade

Advogado e ativista dos Direitos Humanos escreve sobre o Dia da Mulher, data que para ele, deve ser lembrada, contemplada e exaltada, mas com reflexões

Renan Salviano*

Flores são perfumaria. As flores representam uma perfumaria diante da desgraça causada pelo patriarcado, pela misoginia, machismo e racismo. Essa perfumaria ignora a negativa de um direito humano, o direito à vida.

Historicamente mulheres são violadas em sua intimidade, tendo suprimido direitos básicos ao exercício da cidadania, que perduram até os dias atuais.

Mulheres foram violadas sexualmente durante o holocausto, sendo tratadas como escravas sexuais por nazistas, soldados e até mesmo pelos ditos companheiros. A verdade por trás das violações escancara a perpetuação das violências.

Atualmente, mulheres são vítimas da violência estrutural, em inúmeras instituições. A Medicina e o Direito, áreas consideradas nobres e tradicionais culturalmente, vitimam mulheres ao suprimir direitos ao livre exercício da vida, a exemplo da criminalização do aborto, das inúmeras formas de violência obstétrica e da ausência de representatividade nas instituições de classe.

A aniquilação física e moral das mulheres, dentro de instituições defendidas pelo Estado, como a família, também escancara a perfumaria e a romantização da violência doméstica, fundamentando-se em grande parte no domínio dos corpos. Essa aniquilação é ratificada por outras instituições, também protegidas pelo Estado, como a Igreja.

Colocar o dedo na ferida exige coragem, mas se assim não fizermos podemos ser considerados parte de tais problemas, que desencadeiam em estatísticas de feminicídio que colocam nosso Estado no mapa da violência de gênero, desqualificando qualquer afirmação de evolução humana.

É imprescindível que tal data seja lembrada, seja contemplada e exaltada. Porém, enquanto sujeitos pertencentes à comunidade, somos essencialmente responsáveis por apontar as inconsistências de um sistema falido e genocida.

Portanto, temos o dever de refletir, denunciar e enfrentar as violências de gênero, levando sempre em consideração os marcadores sociais da diferença, dentro os quais podemos destacar classe, raça, identidade de gênero e sexualidade.

Comemoremos as conquistas, mas jamais nos conformemos. Flores podem demonstrar um gesto de carinho, respeito e admiração, mas sem a reflexão, aprofundamento e enfrentamento não passam de placebo.

  • Renan Salviano, advogado, palestrante, ativista dos Direitos Humanos e Pós-graduando em Educação em Direitos Humanos pela Universidade Federal do ABC – UFABC.

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