Há várias maneiras de surpreender uma mulher. Flores, por exemplo. Chocolates. Uma viagem inesperada. Um jantar à luz de velas. Ou, para os que preferem emoções mais fortes, um automóvel usado.
Escolhi a última opção.
Não era exatamente um carro do ano, desses que fazem o vizinho rever o próprio patrimônio, mas era mais moderno do que o nosso. E, no casamento, como em quase tudo, modernizar é uma forma de dizer que ainda acreditamos no futuro.
Para realizar tão nobre empreendimento, procurei um velho conhecido, amigo da família e vendedor de automóveis de reconhecida reputação na cidade. Nada como fazer negócios com quem já conhece a nossa árvore genealógica. Se der errado, pelo menos não será necessário explicar quem somos antes de reclamar.
Conversamos sobre marcas, modelos, potência, ano, cor e outras virtudes mecânicas que eu fingia compreender com a segurança de um engenheiro alemão. O vendedor falava, eu concordava. Ele apontava vantagens, eu enxergava oportunidades.
Depois de muitas considerações técnicas e algumas concessões financeiras, chegamos ao tão celebrado denominador comum. Faltava apenas aquela pequena formalidade chamada pagamento, um detalhe sem importância que os bancos insistem em tratar como assunto de segurança nacional.
Resolvida a parte financeira, fui buscar minha mulher para conhecer o presente.
Eu tinha preparado mentalmente a cena. Ela veria o carro, sorriria, talvez me abraçasse. Eu diria alguma coisa espirituosa, dessas que os maridos ensaiam no caminho e esquecem na hora. Depois sairíamos para um passeio, felizes, renovados, como se o casamento tivesse recebido uma revisão completa.
A vida, porém, não costuma respeitar o roteiro escrito pelo interessado.
O mundo parecia sorrir. O motor ronronava, a esposa contemplava a aquisição e eu já ensaiava, mentalmente, os comentários elogiosos dos amigos. Foi quando o destino, esse sujeito sem carteira de habilitação, resolveu participar do passeio.
A apenas duas quadras do posto de combustível, o carro parou. Não morreu dramaticamente, como nos filmes, em que o automóvel ainda percorre alguns metros e para diante de uma paisagem significativa. Morreu ali mesmo, sem poesia, sem aviso e sem a menor consideração pelo marido que acabara de investir na felicidade conjugal.
Foi nesse instante que compreendi a primeira grande lição da indústria automobilística: um carro pode ser moderno, elegante, confortável e possuir todos os acessórios imagináveis, mas, sem combustível, transforma-se num objeto de decoração particularmente inconveniente.
A situação, contudo, foi contornada. Abastecemos o novo amigo metálico, e eu tratei de preservar o entusiasmo da minha companheira. Afinal, contratempos acontecem. Até os casamentos começam com pequenas falhas de funcionamento, embora nem todos tenham um manual do proprietário.
Minha mulher não discutiu.
O silêncio feminino, aprendi ao longo dos anos, pode significar concordância. Também pode significar que a discussão foi apenas adiada para quando houver mais provas.
Voltamos para casa dispostos a celebrar a nova fase. A noite prometia. Havia bebidas, havia expectativa e havia aquele sentimento agradável de quem acredita ter resolvido um problema antes mesmo de descobrir que ele existia.
O primeiro gole foi tranquilo.
O segundo também.
Foi então que surgiu um cheiro estranho.
O nariz, esse fiscal que trabalha sem salário e não aceita suborno, entrou em serviço.
Minha mulher percebeu primeiro. Ou talvez eu tenha percebido e esperado que ela não percebesse. O casamento é também essa delicada disputa para descobrir quem vai mencionar o problema em voz alta.
O cheiro aumentava.
Cheiramos daqui, cheiramos dali, até que a verdade apareceu, sem precisar de perícia técnica: o tanque de combustível estava furado. E não se tratava de uma discreta goteira, dessas que permitem ao proprietário manter a dignidade enquanto procura um mecânico. O tanque despejava, generosamente, o combustível recém-adquirido, como se o carro tivesse decidido patrocinar a economia nacional por meio de uma contribuição compulsória aos postos de gasolina.
A comemoração foi suspensa.
O que era para ser uma noite romântica converteu-se, em poucos minutos, numa operação de defesa civil doméstica.
Entramos em uma nova fase da noite, agora dedicada à engenharia hidráulica improvisada. Surgiram baldes, bacias, mangueiras e tudo o que pudesse ser usado para conter o vazamento. Nossa casa, que minutos antes aspirava à condição de cenário romântico, assumiu a aparência de uma oficina clandestina.
Havia um problema adicional: gasolina e faíscas não são exatamente um casal harmonioso.
A preocupação com um possível incêndio tomou conta do ambiente. O carro, que deveria proporcionar segurança e conforto, transformara-se numa ameaça à integridade física da família e, por extensão, à estabilidade do patrimônio.
O amor continuava presente, mas agora trabalhava em regime de plantão.
Minha mulher acompanhava as operações. Eu tentava demonstrar serenidade, aquela expressão de quem sabe o que está fazendo mesmo quando a única certeza é que alguma coisa está dando muito errado.
É uma habilidade importante no casamento. Não resolve os problemas, mas evita que todos os problemas sejam discutidos ao mesmo tempo.
E o vendedor? Continuava sendo nosso velho conhecido, amigo da família e homem de reputação respeitável. A amizade, aliás, é uma instituição admirável: permite que duas pessoas mantenham relações cordiais mesmo quando uma delas está cercada de baldes, cheiro de gasolina e dúvidas sobre o futuro mecânico da outra.
Os drinques, curiosamente, permaneceram no programa. Não sei se por espírito de resistência ou porque, depois de certa idade, a gente aprende que não se deve desperdiçar tudo numa mesma noite.
Bebemos.
Não brindamos ao carro. Seria provocação.
A madrugada chegou sem oferecer soluções. O sono perdeu a disputa para a preocupação. De tempos em tempos, verificávamos o vazamento, os recipientes e a situação geral. Dormir parecia uma ideia otimista demais para quem havia comprado um automóvel e ganhado um curso noturno de prevenção de acidentes.
Foi quando pensei que talvez a compra tivesse sido um sucesso, afinal.
Minha mulher e eu havíamos passado a noite juntos, trabalhando em equipe, compartilhando preocupações e tomando decisões em circunstâncias adversas. Muitos casais pagam caro por retiros de convivência para alcançar esse grau de integração.
Nós conseguimos com um tanque furado.
No fundo, talvez o automóvel tenha cumprido sua missão. Aproximou-nos da realidade, fortaleceu nosso espírito de cooperação e nos ensinou que, diante de uma emergência, o amor pode até ser cego, mas o nariz continua funcionando perfeitamente.
É verdade que eu imaginava uma experiência mais confortável. Mas a felicidade conjugal tem dessas coisas: às vezes, o marido oferece um presente e a esposa recebe uma história para contar.
E há histórias que não precisam ser inventadas para parecer inacreditáveis.
Não houve passeio ao luar. Não houve brinde triunfal. Não houve sequer a tranquilidade de dormir sem pensar em oficinas.
Na manhã seguinte, o carro continuava sendo o mesmo. O tanque também. A diferença era que agora conhecíamos intimamente suas deficiências, como acontece com as pessoas depois de alguns anos de convivência.
Quanto ao romantismo, esse sobreviverá. Afinal, depois de uma noite dessas, qualquer marido que consiga oferecer à esposa um tanque sem vazamentos já terá dado provas concretas de amor.
E, convenhamos, há presentes que vêm com laço. O meu veio com vazamento.
Pelo menos, agora temos uma história para contar. E, se tudo der certo, um carro para ir embora enquanto contamos.
Por Bob Alecssander, jornalista e escritor

