O avião de pequeno porte que caiu no rio Tietê, em Pereira Barreto (SP), matando o piloto e deixando um passageiro gravemente ferido, tinha peças automotivas adaptadas ao motor e fios elétricos remendados com fita isolante. As irregularidades foram identificadas durante a investigação do Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa), cujo relatório final foi divulgado na quinta-feira (15/10).
O acidente aconteceu em 25 de fevereiro de 2024. A aeronave experimental anfíbia era pilotada por Rosivaldo Mendes da Silva, de 38 anos, que morreu após a queda. O passageiro foi resgatado com vida, mas sofreu ferimentos graves.
Além das condições da aeronave, a investigação apontou irregularidades relacionadas à habilitação do piloto e ao horário da operação. O Cenipa identificou o descumprimento de normas e regulamentos como fator contribuinte para o acidente.

Motor tinha componentes de veículos terrestres
Durante a análise dos destroços, os investigadores encontraram diversos componentes que não eram originalmente destinados ao uso aeronáutico.
Entre eles estavam filtros de ar e combustível, componentes do sistema de óleo, mangueiras e abraçadeiras comuns, além de reparos na fiação elétrica feitos com fita isolante.
Segundo as informações divulgadas a partir do relatório, o próprio piloto realizava serviços de manutenção na aeronave. Rosivaldo era proprietário de uma oficina de motocicletas em Sud Mennucci, município da região de Araçatuba.
A identificação dessas condições, entretanto, não significa que os componentes automotivos tenham provocado diretamente a queda. A investigação não conseguiu determinar se houve uma falha mecânica específica responsável pela perda de controle.
Piloto não tinha habilitação para aeronave anfíbia
Outro ponto identificado pelo Cenipa foi a situação da habilitação do piloto. Embora possuísse licença para operar aeronaves terrestres, Rosivaldo não tinha a habilitação específica exigida para pilotar o modelo anfíbio envolvido no acidente.
O relatório também apontou que ele permaneceu por mais de dez anos com a certificação fora da validade, antes de regularizar sua situação em 2023.
A investigação identificou ainda problemas relacionados ao horário do voo. A aeronave decolou próximo ao anoitecer e a operação ultrapassou os limites do período diurno permitido para aquele tipo de equipamento experimental.
Aeronave caiu cerca de dez minutos após decolagem
No dia do acidente, a aeronave partiu do Aeródromo Fazenda São Joaquim, em Pereira Barreto, transportando o piloto e um passageiro.
De acordo com a reconstituição apresentada na investigação, aproximadamente dez minutos depois da decolagem, o avião inclinou-se repentinamente para a esquerda, perdeu o controle e atingiu violentamente a superfície do rio Tietê.
A aeronave ficou submersa. Equipes de resgate foram mobilizadas, mas o piloto não resistiu. O passageiro sobreviveu ao impacto e foi encaminhado para atendimento médico.
O que o Cenipa concluiu sobre a queda?
Apesar das diversas irregularidades identificadas, a investigação não estabeleceu que o uso de peças automotivas ou os reparos feitos com fita isolante tenham sido a causa direta do acidente.
O fator contribuinte confirmado foi a inobservância de normas e regulamentos relacionados à operação da aeronave.
Já os aspectos envolvendo a manutenção e a aplicação dos comandos de voo foram classificados como indeterminados. O estado de degradação da estrutura e a perda de documentos durante o naufrágio dificultaram a análise técnica.
Com isso, não foi possível esclarecer definitivamente se uma falha no motor, nos componentes estruturais ou nos comandos também participou da sequência que levou à queda.
O relatório do Cenipa tem finalidade preventiva, voltada à identificação de fatores de risco e à elaboração de medidas para evitar novos acidentes. Suas conclusões não representam, por si só, a atribuição de responsabilidade criminal ou civil.
O documento está identificado como A-039/CENIPA/2024 na base de relatórios de acidentes aeronáuticos da Força Aérea Brasileira.

