Um estudo da Universidade de São Paulo (USP) aponta que mudanças nas regras de reajuste de aposentadorias e benefícios sociais podem provocar perdas significativas de renda nas cidades do interior do Brasil. Em um cenário de congelamento dos pagamentos, a renda agregada desses municípios poderia ficar 10,8% abaixo do patamar estimado caso fosse mantido o ritmo recente de valorização dos benefícios.
O levantamento foi elaborado pelo Centro de Pesquisa em Macroeconomia das Desigualdades (Made), vinculado à Faculdade de Economia, Administração, Contabilidade e Atuária (FEA-USP), e divulgado em outubro de 2026. A pesquisa analisou o peso das aposentadorias, pensões, Bolsa Família e Benefício de Prestação Continuada (BPC) na economia de municípios situados fora das capitais e regiões metropolitanas.
Os pesquisadores utilizaram dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) Contínua de 2025 para avaliar a participação dessas transferências na renda das famílias e construir simulações econômicas para o período de 2027 a 2029.
Os resultados não representam uma queda de renda já registrada nem uma previsão definitiva. São comparações entre cenários hipotéticos, construídos para estimar o que poderia acontecer caso as regras de reajuste fossem alteradas.
Dinheiro dos benefícios movimenta o comércio local
Segundo o estudo, os benefícios sociais e previdenciários têm participação proporcionalmente maior na renda dos municípios do interior do que nas capitais e regiões metropolitanas da maioria dos estados.
Isso acontece porque os recursos recebidos por aposentados, pensionistas e famílias beneficiárias de programas sociais são utilizados principalmente no consumo cotidiano, movimentando supermercados, farmácias, padarias, lojas e estabelecimentos prestadores de serviços.
No interior do Ceará, por exemplo, aposentadorias, BPC e Bolsa Família representam aproximadamente 40% da renda agregada das famílias. Na capital e na região metropolitana do estado, a participação é de 22%.
O levantamento também mostra que, entre as famílias de baixa renda, os benefícios podem representar quase metade dos rendimentos, dependendo da região do país.
Esse dinheiro não beneficia apenas quem recebe os pagamentos. Quando é gasto no comércio, também contribui para as receitas das empresas, a remuneração dos trabalhadores e a atividade econômica dos municípios.
De acordo com os pesquisadores, aproximadamente um terço da diferença de renda estimada nos cenários analisados está associado a esses efeitos indiretos sobre o consumo e a economia local.
O que aconteceria se os benefícios deixassem de crescer?
Para avaliar os possíveis impactos, os economistas construíram três cenários alternativos de evolução dos pagamentos entre 2027 e 2029.
O primeiro considera um congelamento dos valores nominais, sem qualquer reajuste. Os outros dois reproduzem padrões de crescimento observados durante o governo de Jair Bolsonaro, entre 2019 e 2022, diferenciando os efeitos de pagamentos extraordinários realizados durante a pandemia.
Os resultados foram comparados a um cenário de referência que mantém o ritmo de crescimento real dos benefícios observado entre 2022 e 2025, durante o terceiro governo de Luiz Inácio Lula da Silva.
De acordo com as simulações, a renda agregada dos municípios do interior poderia ficar entre 6,8% e 10,8% abaixo do cenário de referência em 2029, dependendo da regra aplicada.
No cenário que reproduz a política de reajustes adotada durante o governo Bolsonaro, sem os efeitos extraordinários dos auxílios, a diferença estimada seria de 8,4%. Já no cenário de congelamento completo dos valores, chegaria a 10,8%.
Isso não significa necessariamente uma redução absoluta desse tamanho na renda atual. Os percentuais representam a diferença entre a renda projetada sob cada hipótese e aquela que seria alcançada com a continuidade da trajetória de valorização utilizada como referência.
Interior de São Paulo também seria afetado
Embora os impactos projetados sejam maiores no Norte e no Nordeste, o estudo indica que municípios do interior paulista também seriam atingidos por uma desaceleração dos benefícios.
São Paulo aparece entre os estados com perdas proporcionais mais moderadas nas simulações, ao lado de Mato Grosso do Sul, Rio de Janeiro, Espírito Santo, Mato Grosso, Rio Grande do Sul e Santa Catarina.
Ainda assim, a dimensão populacional paulista faz com que diferenças relativamente pequenas na renda possam atingir um número expressivo de pessoas.
Em outro exercício, que simulou o que teria acontecido se os benefícios permanecessem congelados entre 2022 e 2025, os pesquisadores estimaram que o interior de São Paulo poderia ter registrado 263 mil pessoas a mais abaixo da linha de pobreza.
Esse resultado é hipotético e se refere ao conjunto de municípios paulistas fora da capital e de sua região metropolitana. O levantamento não apresenta uma estimativa específica para Araçatuba ou outras cidades da região.
Estudo estima impacto sobre milhões de brasileiros
Além dos efeitos sobre a economia, a pesquisa avaliou como diferentes políticas de reajuste poderiam alterar os indicadores de pobreza.
No cenário em que os benefícios tivessem permanecido congelados entre 2022 e 2025, aproximadamente 2,7 milhões de pessoas a mais estariam abaixo da linha de pobreza nos municípios do interior, segundo a simulação.
Desse contingente estimado, cerca de 2,4 milhões também estariam em situação de extrema pobreza.
Em outro cenário, que reproduziu padrões históricos de reajuste, o aumento estimado seria de 1,8 milhão de pessoas na pobreza, sendo aproximadamente 1,4 milhão na extrema pobreza.
Os números foram obtidos por meio de um exercício contrafactual, no qual os pesquisadores alteraram hipoteticamente os valores dos benefícios e mantiveram constantes outros fatores. Portanto, não representam pessoas que efetivamente entraram na pobreza durante o período.
Debate sobre mudanças nas regras motivou pesquisa
A elaboração do estudo ocorreu em meio ao debate sobre possíveis alterações na política de reajuste dos benefícios sociais e previdenciários.
Os autores citam informações divulgadas sobre a discussão de um ajuste fiscal de aproximadamente R$ 250 bilhões pela equipe econômica do candidato presidencial Flávio Bolsonaro (PL). Entre as possibilidades mencionadas estaria a desvinculação dos reajustes de aposentadorias e do BPC dos ganhos reais do salário mínimo.
Como não havia definição sobre as medidas que seriam efetivamente adotadas, os pesquisadores utilizaram diferentes hipóteses para avaliar seus possíveis efeitos econômicos.
As simulações não demonstram que um futuro governo necessariamente adotaria essas regras, nem representam uma avaliação de um programa econômico definitivo.
A Nota de Política Econômica nº 90, intitulada Quanto perdem as economias do interior quando os benefícios sociais deixam de crescer? Simulações dos efeitos na renda e na pobreza, foi elaborada por Luiza Nassif-Pires, Clara Brenck, Clara Saliba e Theo Diogo.
O estudo completo está disponível no site oficial do Made-USP.

