A Praia Municipal de Sabino, no noroeste paulista, voltou a ser considerada própria para banho após permanecer 245 dias com restrições de uso, principalmente em razão da proliferação de algas no braço do Rio Tietê que influencia a qualidade da água no local.
A liberação ocorreu depois de duas análises consecutivas da Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (Cetesb) registrarem concentrações de microcistina abaixo do limite de 5 microgramas por litro. O índice foi de 2,8 microgramas por litro em 8 de setembro e caiu para 1,95 micrograma por litro no dia 15.
A classificação passou a valer na sexta-feira (18) e permanece até o dia 25, quando a Cetesb fará nova atualização das condições de balneabilidade.
A melhora foi registrada cerca de dois meses após o início da operação de 14 boias inteligentes instaladas no Córrego do Esgotão, braço do Rio Tietê localizado no reservatório de Promissão. O sistema utiliza ondas ultrassônicas para dificultar a permanência das algas na superfície da água.
Segundo os dados divulgados pela Cetesb, a concentração de microcistina caiu 91,5%, passando de 23 microgramas por litro, em 17 de agosto, para 1,95 micrograma por litro, em 15 de setembro.
A microcistina é uma toxina produzida por determinadas espécies de cianobactérias. Quando encontrada em concentrações elevadas, pode comprometer a utilização recreativa da água e é um dos parâmetros considerados nas avaliações ambientais.
Como funciona a tecnologia
As 14 boias começaram a operar em julho no Córrego do Esgotão. A tecnologia foi implantada como projeto-piloto da Cetesb e recebeu investimento de aproximadamente R$ 9 milhões.
O princípio do sistema é interferir na capacidade das algas de permanecerem próximas à superfície. Para crescer e se multiplicar, esses organismos dependem da luz solar para realizar a fotossíntese. As ondas ultrassônicas dificultam a permanência das algas na superfície, reduzindo a disponibilidade de luz e, consequentemente, o desenvolvimento das florações.
A tecnologia não utiliza produtos químicos. Segundo informações divulgadas sobre o projeto, o sistema foi desenvolvido na Holanda e já é empregado em cerca de 60 países. A implantação em Sabino foi escolhida devido ao histórico de florações de algas na região e à existência de uma estrutura de monitoramento ambiental.
O sistema abrange aproximadamente 960 mil metros quadrados, área equivalente a mais de 130 campos de futebol, e cerca de 7 milhões de metros cúbicos de água.
As boias funcionam de maneira integrada e possuem alcance aproximado de 500 metros de diâmetro. Quatro dos equipamentos também atuam como estações automáticas de monitoramento.
Sensores acompanham continuamente parâmetros como oxigênio dissolvido, pH, turbidez, temperatura, clorofila e ficocianina. Uma estação meteorológica complementa os dados com informações sobre chuva, vento e temperatura.
Com base nas informações coletadas, o sistema pode ajustar automaticamente a frequência e a intensidade das ondas ultrassônicas. A estrutura funciona com energia solar e baterias de lítio.
Resultado apareceu antes do prazo previsto
A expectativa inicial era de que os primeiros efeitos do projeto pudessem ser observados depois de aproximadamente 90 dias de funcionamento. Em Sabino, entretanto, a redução da concentração de microcistina foi registrada ainda no segundo mês de operação.
O projeto-piloto terá duração de um ano. Durante esse período, a Cetesb pretende acompanhar o comportamento do sistema em diferentes condições climáticas, incluindo períodos de chuva, estiagem e variações de temperatura.
A ideia é verificar a eficiência da tecnologia ao longo de um ciclo mais amplo antes de avaliar sua eventual utilização em outros locais que apresentem problemas semelhantes.
Praia ficou própria poucas vezes em 2026
A Praia Municipal de Sabino foi considerada própria para banho apenas três vezes em 2026 até o atual período de liberação. As outras ocorrências haviam sido registradas nos dias 9 e 16 de janeiro.
Durante os demais períodos, a principal causa das restrições foi a presença de algas. Em algumas semanas, também foram detectadas concentrações de E. coli, bactéria indicadora de contaminação por material fecal.
A presença desse tipo de bactéria pode estar relacionada ao lançamento de esgoto sem tratamento ou à chegada de dejetos de animais aos corpos d’água, inclusive por meio do escoamento provocado pelas chuvas.
A Cetesb mantém acompanhamento semanal das praias de água doce monitoradas na região. O histórico oficial confirma que o ponto de Sabino apresentou sucessivas classificações de impropriedade ao longo do ano antes da atual melhora.
Seis das oito praias estão próprias
No boletim válido até 25 de setembro, seis das oito praias de água doce monitoradas semanalmente pela Cetesb no Médio e Baixo Tietê estão classificadas como próprias para banho.
Além de Sabino, aparecem com classificação favorável Anhembi, Rio Bonito, em Botucatu, Arealva, Mendonça e Ubarana.
Iacanga e Sales permanecem classificadas como impróprias.
O acompanhamento abrange oito pontos distribuídos por diferentes municípios e reservatórios da região. A Cetesb realiza coletas e análises laboratoriais semanalmente, enquanto novas ferramentas de monitoramento ajudam a identificar alterações na superfície da água.
Satélites também ajudam a acompanhar o Tietê
Além das boias instaladas em Sabino, a Cetesb passou a utilizar imagens de satélite associadas à inteligência artificial para acompanhar grandes extensões do Rio Tietê.
O sistema monitora aproximadamente mil quilômetros do rio, entre Suzano e Itapura, além do Rio Pinheiros e de importantes reservatórios da bacia.
As imagens são atualizadas semanalmente e permitem identificar alterações na superfície da água. Segundo as informações divulgadas pela Cetesb, cada pixel analisado representa uma área de aproximadamente três metros por três metros.
Quando o sistema identifica alterações, os dados podem orientar as equipes sobre os pontos que precisam de coleta de amostras, vistoria ou reforço na fiscalização.
As duas tecnologias têm funções diferentes: enquanto as boias fazem monitoramento contínuo e atuam diretamente no controle das algas em Sabino, os satélites permitem observar grandes extensões do sistema hídrico.
Recuperação do Tietê envolve outras ações
O projeto-piloto de Sabino integra o Programa IntegraTietê, que reúne ações relacionadas ao saneamento, desassoreamento, fiscalização ambiental, monitoramento da qualidade da água e recuperação ambiental.
Segundo dados apresentados pelo Governo de São Paulo, entre 2024 e 2026 houve redução da carga de matéria orgânica transportada pelo Tietê na saída da Região Metropolitana de São Paulo, de 218 para 154 toneladas por dia.
Também foram relatadas reduções na concentração média de Carbono Orgânico Total (COT) em diferentes afluentes monitorados na Grande São Paulo e em trechos do Médio Tietê.
Outra frente é o desassoreamento. Desde 2023, o Estado informa ter retirado mais de 6,5 milhões de metros cúbicos de sedimentos de rios, dentro das ações relacionadas à recuperação do sistema hídrico.
A fiscalização ambiental também foi ampliada, com participação de órgãos estaduais e municipais e da Polícia Militar Ambiental.
Cetesb recomenda consultar a situação antes do banho
Mesmo com a classificação como própria, a orientação é que os frequentadores consultem a situação mais recente antes de entrar na água.
A classificação das praias é atualizada semanalmente pela Cetesb e pode mudar conforme os resultados das novas análises.
A recomendação também é evitar o banho durante chuvas fortes e nas 24 horas seguintes. O escoamento superficial pode carregar para os rios esgoto, resíduos e fezes de animais, alterando temporariamente a qualidade da água.
A situação das praias monitoradas pode ser consultada nos canais oficiais da Cetesb. O histórico disponível no sistema da companhia registra a evolução semanal das classificações de balneabilidade.
O projeto de Sabino seguirá em acompanhamento durante o período de um ano, quando a Cetesb deverá avaliar o comportamento das boias em diferentes condições ambientais e os resultados obtidos no controle das florações de algas.

