A Polícia Civil investiga uma suposta ameaça dirigida ao juiz Deyvison Heberth dos Reis, da 3ª Vara de Presidente Venceslau (SP), durante uma audiência de instrução e julgamento envolvendo réus acusados de integrar uma organização criminosa armada ligada ao Primeiro Comando da Capital (PCC). O episódio voltou a repercutir após a divulgação de imagens da audiência e motivou manifestações de instituições do Judiciário.
A declaração foi feita pelo advogado Marcos Roberto Cebola e Silva durante a discussão sobre pedidos de revogação de prisões preventivas. Segundo informações divulgadas pelo SBT News, o defensor afirmou que, caso o magistrado não revogasse as prisões, temia que ele não chegasse ao “Elísio”.
No contexto da fala, “Elísio” é uma referência da mitologia grega ao destino reservado às almas consideradas dignas, frequentemente associado à ideia de paraíso após a morte.
O juiz interpretou a declaração como uma possível ameaça à sua vida e comunicou o episódio às autoridades. A Polícia Civil instaurou investigação para apurar as circunstâncias e verificar se houve crime.
Advogado nega ameaça
Após a declaração, o magistrado questionou o advogado sobre o significado da fala. Cebola negou que tivesse feito uma ameaça e afirmou que utilizava a expressão “Elísio” em referência ao paraíso.
De acordo com informações divulgadas pelo SBT News, o advogado sustentou que todas as pessoas morreriam um dia e que sua manifestação fazia referência ao destino após a morte. O juiz, contudo, considerou a declaração incompatível com o contexto da audiência e relatou o caso às autoridades.
O advogado também é citado em reportagens como suspeito de ter ligação com o PCC. Essa condição, assim como a suposta ameaça, permanece sob apuração e não representa condenação.
Audiência envolvia acusados de integrar o PCC
A audiência tratava de um processo relacionado a integrantes ou supostos integrantes do Primeiro Comando da Capital. O defensor atuava na defesa de pessoas que estavam presas preventivamente e buscava a revogação das prisões.
A Associação Paulista de Magistrados (Apamagis) informou que o episódio ocorreu durante uma audiência de instrução da chamada Operação Scream Fake, investigação que apura crimes atribuídos a integrantes da facção. A entidade classificou as declarações como graves e afirmou que o caso é objeto de inquérito por possível coação no curso do processo.
Segundo a Apamagis, durante a audiência também houve referência ao ex-delegado-geral Ruy Ferraz Fontes, que foi assassinado em 2025. A associação afirmou que a menção ocorreu durante questionamentos feitos a um delegado e que, posteriormente, a declaração sobre o “Elísio” foi dirigida ao magistrado.
TJ-SP manifesta repúdio
O Tribunal de Justiça de São Paulo confirmou que as imagens que circulam nas redes sociais correspondem a uma audiência realizada de forma on-line. A instituição manifestou repúdio às ameaças, ofensas e acusações pessoais dirigidas ao juiz.
Em posicionamento divulgado sobre o caso, o TJ-SP ressaltou que as prerrogativas profissionais da advocacia e a liberdade de manifestação não autorizam intimidações ou ataques pessoais contra magistrados ou outros agentes públicos no exercício das funções.
O tribunal também informou que, diante da gravidade do episódio, acionaria a Ordem dos Advogados do Brasil – Seção São Paulo (OAB-SP) para que fossem adotadas as providências cabíveis em relação à conduta atribuída ao advogado.
A Procuradoria-Geral de Justiça também informou que encaminharia o caso à OAB-SP para análise.
Investigação continua
A apuração criminal está sob responsabilidade da Divisão Especializada de Investigações Criminais (Deic), em Presidente Prudente. O procedimento tramita sob sigilo, segundo informações divulgadas pela imprensa.
A investigação deverá analisar o conteúdo integral da audiência, o contexto das declarações e os demais elementos apresentados às autoridades para definir se houve prática criminosa.
Até o momento, não há decisão judicial que reconheça a existência de ameaça ou estabeleça responsabilidade criminal do advogado. A apuração permanece em andamento.
O juiz Deyvison Heberth dos Reis também ganhou notoriedade por ter decretado a prisão da influenciadora Deolane Bezerra em investigação relacionada a um suposto esquema de lavagem de dinheiro. A ligação entre os dois episódios, contudo, não foi apontada pelas autoridades como parte da investigação sobre a declaração feita durante a audiência.

