Poucos nomes da comunicação local ficaram tão ligados à história de Araçatuba quanto o de Odorindo Perenha. Jornalista, radialista, poeta, compositor e atento observador da vida pública, ele construiu uma trajetória marcada pela palavra escrita e falada, pela participação nos debates da cidade e pela valorização da cultura local.
Nascido em outubro de 1923, Odorindo fez de Araçatuba o cenário de grande parte de sua vida profissional e familiar. Casou-se com Shirley Perenha, com quem teve três filhos: Itamar, Itanir e Irany Perenha. Faleceu em maio de 1984, deixando uma contribuição que continuaria presente na imprensa, no rádio e na memória urbana do município.
A palavra como instrumento de atuação
Desde cedo, Odorindo revelou habilidade para a escrita e para a comunicação. Em um período da história brasileira marcado por fortes disputas políticas e por restrições à liberdade de expressão, ganhou reconhecimento por suas opiniões firmes e por sua capacidade de analisar os acontecimentos da época.
Para publicar comentários políticos mais contundentes durante o período de censura, adotou o pseudônimo Ubirajara Lemos. A estratégia permitia tratar de assuntos delicados sem abandonar o espaço de análise e crítica que caracterizava sua atuação.
Na imprensa escrita, um dos capítulos importantes de sua carreira foi a passagem pelo tradicional jornal A Comarca. Entre os trabalhos que ganharam repercussão estava a coluna “Chutando de Bico”, na qual comentava acontecimentos políticos e sociais com humor, ironia e conhecimento da realidade regional.
A coluna ajudou a consolidar sua imagem como cronista atento à vida de Araçatuba e aos movimentos da política local.
A fundação da Folha da Região
Outro momento marcante ocorreu em 11 de junho de 1972. Naquela data, Odorindo Perenha participou da fundação do jornal Folha da Região, ao lado de Antônio Barreto dos Santos e Luiz Gonzaga Deleteze.
O surgimento do periódico representou uma nova iniciativa para o fortalecimento da imprensa regional. Ao longo das décadas, a Folha da Região se consolidaria como um dos veículos de comunicação conhecidos no interior paulista.
A participação de Odorindo naquele projeto reforça sua ligação com o desenvolvimento do jornalismo em Araçatuba e sua preocupação com a existência de espaços destinados à informação, à análise dos acontecimentos e ao debate público.
Uma voz conhecida no rádio
A comunicação de Odorindo não se limitou aos jornais. No rádio, sua voz também alcançou grande reconhecimento.
Ele trabalhou em emissoras de Araçatuba e da Grande São Paulo, incluindo a tradicional Rádio Tupi. Entre os programas apresentados por ele estavam “Janela para a Vida” e “Pedrinha no Sapato”.
Os programas combinavam informação, opinião, cultura e entretenimento. O estilo direto e bem-humorado ajudou a aproximá-lo dos ouvintes e ampliou sua presença no cotidiano de diferentes gerações.
Naquele período, o rádio ocupava posição central na comunicação brasileira e possuía enorme influência sobre a formação de opinião e a circulação de informações. A presença de Odorindo diante dos microfones ampliou ainda mais sua relação com o público.
Jornalista, poeta e compositor
A atuação de Odorindo Perenha também alcançou o campo artístico. Poeta, compositor e cantor, produziu letras e músicas ligadas à cidade e à sua população. Também escreveu hinos e canções destinados a escolas de Araçatuba, contribuindo para manifestações culturais e cívicas presentes no ambiente escolar.
Essa produção revela uma característica importante de sua trajetória: comunicação, cultura e participação comunitária caminhavam lado a lado. Para Odorindo, conforme demonstra sua atuação, a palavra podia informar, provocar reflexão e também preservar sentimentos de pertencimento e identidade.
Influência na vida pública
Sua capacidade de análise política também lhe rendeu reconhecimento para além das redações e dos estúdios de rádio.
Prefeitos, vereadores e outras personalidades da região procuravam Odorindo em busca de opiniões e avaliações sobre os rumos políticos e administrativos de Araçatuba.
Sua influência não dependia necessariamente do exercício de um cargo público. Ela vinha da credibilidade acumulada como comunicador e observador da realidade regional.
Em uma cidade em processo de crescimento e transformação, a imprensa desempenhava papel importante no acompanhamento das decisões públicas. Odorindo participou desse ambiente como profissional da comunicação e como personagem atento aos acontecimentos de seu tempo.
Uma avenida para preservar seu nome
O reconhecimento à sua contribuição também ganhou espaço no mapa de Araçatuba. A Prefeitura denominou Avenida Odorindo Perenha uma importante via localizada na Zona Leste da cidade. Com o passar dos anos, a avenida tornou-se um dos principais corredores comerciais e de circulação urbana daquela região.
Para muitos moradores, o nome faz parte do cotidiano. A história por trás da placa, porém, remete a um personagem que dedicou décadas à comunicação, à cultura e à discussão dos caminhos de Araçatuba.
A homenagem contribui para que novas gerações tenham contato, ainda que inicialmente apenas pelo nome da avenida, com a memória de quem participou ativamente da construção da imprensa regional.
Uma memória que permanece
Odorindo Perenha faleceu em maio de 1984, mas sua trajetória continuou associada ao jornalismo e à comunicação de Araçatuba. Sua passagem pelos jornais, pelo rádio, pela produção cultural e pelos debates da vida pública registra um período importante da história local, quando a imprensa escrita e o rádio tinham papel decisivo na formação da opinião pública e no cotidiano da população.
Mais do que o nome de uma avenida, Odorindo Perenha representa uma memória ligada à palavra, ao jornalismo e à cultura araçatubense. Relembrar sua trajetória é também preservar parte da história dos profissionais que ajudaram a registrar, interpretar e acompanhar as transformações de Araçatuba ao longo do século XX.
Crédito editorial
Alceu Batista de Almeida Junior é advogado, memorialista e autor do Livro: Memórias de Araçatuba.

