Texto baseado em relatos e registros de Alceu Batista, adaptado pela redação.
Uma vida ligada à história de Araçatuba
Muitos moradores conhecem o Jardim Dona Amélia, um dos bairros tradicionais de Araçatuba, mas nem todos sabem quem foi a mulher que empresta seu nome a essa região da cidade. Dona Amélia Izar Abujamra foi uma das figuras mais importantes da vida social e administrativa do município. Sua trajetória reúne pioneirismo no serviço público, dedicação à família e uma atuação marcante na assistência social.
Nascida em 30 de janeiro de 1912, em São João da Bocaina, no interior paulista, Amélia Izar era filha de Francisco Izar e Maria Izar, ambos de origem síria. Ainda menina, chegou a Araçatuba com os pais e as irmãs, em 19 de dezembro de 1917, quando o município ainda dava seus primeiros passos como distrito de Penápolis.
Conforme registros preservados sobre sua vida, Dona Amélia costumava resumir essa ligação com uma frase de forte valor simbólico: “Eu e Araçatuba nos encontramos ainda meninas e, por isso, crescemos juntas.”
A infância em uma cidade em formação
A infância de Dona Amélia acompanhou de perto o desenvolvimento urbano de Araçatuba. Seu pai, conhecido como “seo Izar”, instalou uma das primeiras casas comerciais da cidade, na Rua Oswaldo Cruz, nº 33. O estabelecimento vendia tecidos, calçados, secos e molhados, tornando-se uma referência para os moradores daquele período.
Naqueles primeiros anos, Araçatuba ainda tinha características de povoado em formação. Segundo os relatos, a cidade não possuía iluminação pública, e as noites eram marcadas pelo silêncio e pela escuridão. Para estudar na escola particular de Dona Helena, a menina Amélia precisava atravessar uma área de mata onde hoje está a Praça Rui Barbosa.
Mais tarde, o terreno daquela mata seria destinado à construção do primeiro grupo escolar da cidade. Seu pai, ao lado de outros pioneiros, também participou da doação de um novo terreno ao Estado, onde posteriormente seria construído o Grupo Escolar Cristiano Olsen.
Aos 12 anos, Dona Amélia foi enviada para estudar no tradicional Colégio Sant’Ana, em São Paulo, onde permaneceu interna por quatro anos. Depois, voltou à capital paulista para continuar os estudos e formou-se na Escola de Comércio Álvares Penteado.
Em 1932, durante a Revolução Constitucionalista, já de volta a Araçatuba, participou das campanhas de apoio aos soldados paulistas, um episódio que revela seu envolvimento com as mobilizações cívicas de sua época.
A primeira mulher no funcionalismo municipal
Em 1934, Dona Amélia iniciou sua trajetória na Prefeitura de Araçatuba. No ano seguinte, em 1935, foi oficialmente nomeada para o cargo de terceira escriturária da seção da Receita Pública. Com essa nomeação, tornou-se a primeira mulher a integrar o funcionalismo municipal de Araçatuba.
Sua presença na administração pública representou um marco para a cidade. Em um período em que a participação feminina em cargos públicos ainda era limitada, Dona Amélia abriu caminho com competência, firmeza e dedicação ao trabalho.
Ao longo dos anos, permaneceu vinculada à área da Receita Pública. Foi promovida sucessivamente até alcançar o cargo de chefe da Receita Pública, função em que se aposentou em 1962. Sua carreira no serviço público ficou marcada pela seriedade e pelo compromisso com a administração municipal.

Família e compromisso social
Em 2 de julho de 1936, aos 24 anos, Dona Amélia casou-se com Milhem Abujamra, pioneiro que chegou a Araçatuba por volta de 1930 e também se destacou pelo trabalho social e assistencial na cidade.
O casal teve três filhos: Salim Pedro Abujamra, médico; Sérgio Paulo Abujamra, engenheiro; e Solange Abujamra Nascimento, assistente social. A família manteve forte ligação com causas sociais e instituições beneficentes do município, reforçando uma tradição de participação comunitária.
Após sua aposentadoria da Prefeitura, Dona Amélia passou a dedicar-se integralmente à assistência social. Foi nesse campo que sua atuação ganhou ainda mais reconhecimento público.
A atuação na FAPS
Um dos maiores legados de Dona Amélia foi sua ligação com a FAPS — Fundação Araçatubense de Promoção Social. Criada em 1966 para coordenar e apoiar entidades assistenciais da cidade, a instituição teve Dona Amélia entre suas fundadoras.
A partir de 1974, ela assumiu a presidência da fundação, cargo que exerceu até a extinção da entidade, em 1993. Durante sua liderança, a FAPS desenvolveu campanhas e ações voltadas à população mais vulnerável de Araçatuba.
Entre as iniciativas estavam campanhas do agasalho, distribuição de alimentos e medicamentos, fornecimento de óculos e fraldas, apoio aos Clubes de Mães, construção de moradias populares, programas de saneamento básico e acolhimento de pessoas em situação de rua.
Segundo os registros, Dona Amélia percorria a cidade com a tradicional perua da FAPS, recolhendo pessoas em situação de abandono e encaminhando-as para instituições de acolhimento, onde recebiam alimentação, higiene e assistência. A fundação chegou a atender cerca de 4.600 famílias cadastradas.
Reconhecimento e memória preservada
Pelos serviços prestados à comunidade, Dona Amélia recebeu homenagens ainda em vida. Em 6 de setembro de 1981, a Câmara Municipal concedeu-lhe o título de Cidadã Araçatubense, por iniciativa do vereador Valdivino dos Santos.
Dona Amélia Izar Abujamra faleceu em 20 de outubro de 1995, aos 83 anos. Depois de sua morte, o município voltou a homenageá-la ao denominar oficialmente o Fundo Social de Solidariedade com seu nome.
Além disso, o Jardim Dona Amélia eternizou sua memória no cotidiano da população araçatubense. O nome do bairro mantém viva a lembrança de uma mulher que acompanhou o crescimento da cidade desde a infância e dedicou boa parte de sua vida ao serviço público e à solidariedade.
Mais do que uma homenagem em placas, documentos ou mapas urbanos, o nome de Dona Amélia representa uma parte importante da história de Araçatuba: a história de quem viu a cidade nascer, trabalhou por sua administração e ajudou a cuidar de sua gente.

