O Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), do Ministério Público de São Paulo, e a Receita Federal deflagraram na manhã desta quinta-feira (28) a operação “Fluxo Oculto”, nova fase da Operação Carbono Oculto, que investiga a infiltração do Primeiro Comando da Capital (PCC) no setor de combustíveis e no sistema financeiro.
A operação cumpre cerca de 60 mandados de busca e apreensão em cinco estados: São Paulo, Paraná, Rio de Janeiro, Minas Gerais e Mato Grosso do Sul. Segundo os investigadores, o esquema criminoso continuou funcionando mesmo após a deflagração da Operação Carbono Oculto, em agosto de 2025, utilizando novas empresas, fintechs e estruturas financeiras para lavar dinheiro, ocultar patrimônio e manter atividades ligadas à adulteração de combustíveis e à sonegação fiscal.
De acordo com o Ministério Público, a investigação revelou um sofisticado sistema de engenharia financeira que envolvia fintechs, fundos de investimento e empresas de fachada para dificultar o rastreamento dos recursos. Relatórios de inteligência financeira identificaram movimentações suspeitas de aproximadamente R$ 3,86 bilhões.
Os principais investigados são os empresários Mohamad Hussein Mourad, conhecido como “Primo”, e Roberto Augusto Leme da Silva, chamado de “Beto Louco”. Ambos estão foragidos desde agosto do ano passado, após a Operação Tank, da Polícia Federal, realizada no mesmo período da Carbono Oculto.
Segundo o MP, os investigados tentaram fechar acordos de delação premiada, mas as propostas foram rejeitadas. Os promotores afirmam que os empresários omitiram informações consideradas essenciais sobre lavagem de dinheiro, conexões com o PCC e suspeitas de corrupção policial.
A investigação aponta que o grupo passou a centralizar operações financeiras de dezenas de postos de combustíveis em contas únicas administradas por fintechs, prática conhecida como “conta-bolsão”. Nesse modelo, os valores de diferentes empresas eram concentrados em uma única conta bancária vinculada à instituição financeira, enquanto a identificação real dos donos do dinheiro ocorria apenas nos sistemas internos da plataforma.
Segundo o Gaeco, esse mecanismo criava uma camada de ocultação que dificultava o monitoramento por órgãos como o Banco Central e o Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf). Quando uma fintech passava a ser alvo de fiscalização, os recursos eram rapidamente transferidos para outra instituição.
Entre as empresas citadas na investigação estão BK Bank, Ceopag, Sispay, Vpay, Yaw e Smart Solutions Group. O Ministério Público afirma que algumas dessas instituições possuem histórico de fraudes e conexões com integrantes ou operadores ligados ao PCC.
A Smart Solutions Group, conforme os relatórios da investigação, movimentou mais de R$ 1,2 bilhão, sendo cerca de metade desse valor destinada à GGX Global, holding de postos vinculada ao grupo criminoso. Já a Ceopag registrou movimentações consideradas atípicas, com R$ 359 milhões em créditos e R$ 513 milhões em débitos em curto espaço de tempo.
A operação também mira a chamada “máfia do nafta”, esquema que utilizava solventes petroquímicos importados, com tributação reduzida, para adulterar gasolina automotiva. Segundo as investigações, empresas produtoras e importadoras emitiam notas fiscais falsas para simular vendas a indústrias químicas de fachada registradas em nome de “laranjas”.
Na prática, o produto não era entregue às empresas declaradas nas notas fiscais. Os caminhões desviavam as rotas e descarregavam a nafta diretamente em distribuidoras e terminais terrestres, onde o solvente era misturado à gasolina tipo A antes de chegar aos postos.
O Ministério Público afirma que mais de 135 milhões de litros de nafta foram desviados em pouco mais de dois anos. Apenas a empresa Petrodansk teria emitido mais de 10 mil notas fiscais falsas, somando cerca de R$ 1,49 bilhão em operações.
O prejuízo estimado com a sonegação fiscal ultrapassa R$ 200 milhões. Entre os alvos dessa frente da investigação estão produtores, operadores logísticos, distribuidoras e empresas de transporte apontadas como integrantes do esquema.
Outra linha da operação investiga o uso de fundos de investimento em direitos creditórios (FIDCs) como etapa final da lavagem de dinheiro. Segundo o MP, fundos fechados com poucos cotistas eram utilizados para quitar boletos emitidos por empresas de fachada, simulando operações financeiras legais para dar aparência lícita aos recursos obtidos com a adulteração de combustíveis.
Para bloqueio patrimonial, a Justiça autorizou medidas que atingem fundos investigados com patrimônio estimado em R$ 85 milhões, R$ 72 milhões e R$ 47 milhões.

