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Artigo: ‘Educação, o antídoto contra a misoginia’

por Fabricio Oliveira
27/04/2026 às 09:00
em COTIDIANO
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Reduzir a misoginia a um simples “ódio às mulheres” é ignorar a teia social complexa e sutil. Ela se infiltra no dia a dia: em piadas, no descrédito da voz feminina, no controle sobre corpos e escolhas, e floresce em culturas de raiva no ambiente digital. Embora seja um problema profundo, o caminho para a cura passa por um pilar indispensável: a educação.

Essa aversão se revela quando o universo feminino é tratado como “menor” ou quando as emoções de uma mulher são rotuladas como “loucura” ou “histeria”. A ideia de que mulheres devem suportar a dor em silêncio cria o mito da “guerreira”, sem que ninguém pergunte por que ela precisa lutar tanto. E, a resposta é simples: a sociedade as obriga. Essa construção cultural tem consequências reais e devastadoras, pois a noção de que o corpo feminino é uma propriedade alheia é a base para estatísticas alarmantes e os dados são brutais.

Segundo a Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE) de 2024, quase 9% dos estudantes de 13 a 17 anos no Brasil já foram forçados a ter relações sexuais. Entre as meninas, o índice salta para quase 12%. O mais chocante é que, na maioria dos casos, a agressão parte do círculo de confiança, familiares, namorados e amigos, destruindo a ideia do lar como um lugar seguro.

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A misoginia não é natural; é um projeto histórico. Como aponta a filósofa Silvia Federici, o capitalismo domesticou o corpo feminino para servir a interesses econômicos, consolidando uma ordem patriarcal. Ao delegar às mulheres ao trabalho não remunerado do cuidado, o sistema garantiu sua dependência. O desprezo virou ferramenta de poder.

Se a misoginia é uma construção, ela pode ser desfeita, e a educação é a principal ferramenta. A escola precisa ir além do básico, incluindo o debate sobre gênero, valorizando as contribuições femininas na história e, acima de tudo, treinando professores para combater o machismo em sala. É essencial ensinar os jovens a filtrar a desinformação online, especialmente a que vem de redutos misóginos como a cultura “incel”, onde a frustração masculina se transforma em ódio e incitação à violência.

O respeito, contudo, se aprende primeiro em casa, com a divisão de tarefas e o incentivo para que meninos e meninas tenham as mesmas oportunidades. Um diálogo aberto sobre empatia é a melhor maneira de criar homens que não se sintam ameaçados pela força feminina. A mídia também tem seu papel, pois quanto mais mulheres protagonistas virmos em filmes, séries e no jornalismo, mais rápido quebraremos os estereótipos.

A luta contra a misoginia não é uma “guerra dos sexos”, mas uma busca por direitos humanos que beneficia a todos. Questionar os padrões de gênero que também aprisionam os homens é o caminho para uma sociedade mais livre e justa para todos.

* Bruna Pellegrini é doutora e mestre em Comunicação, pesquisadora na área e gênero, sexualidade e feminismo e professora universitária na UniCesumar de Maringá (PR).

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