O Ministério Público do Estado de São Paulo (MPSP), em ação conjunta com a Polícia Federal por meio da Força Integrada de Combate ao Crime Organizado (FICCO) e com apoio da Corregedoria da Polícia Civil, deflagrou na manhã desta quinta-feira (5) a Operação Bazaar. O objetivo é desarticular um amplo esquema de corrupção policial que protegia uma organização criminosa especializada em lavagem de dinheiro .
Até o início da tarde, nove pessoas haviam sido presas, entre elas policiais civis, advogados e a delatora da Operação Lava Jato Meire Poza, ex-contadora do doleiro Alberto Youssef . A Justiça autorizou o cumprimento de 11 mandados de prisão preventiva, 25 de busca e apreensão – inclusive em unidades policiais – e o bloqueio de bens e valores dos investigados .
Como funcionava o esquema
Segundo as investigações do Grupo de Atuação Especial de Combate às Organizações Criminosas (Gaeco), a organização criminosa era composta por doleiros, operadores financeiros e indivíduos com extenso histórico de lavagem de capitais . O grupo pagava propina de forma sistemática a agentes públicos para garantir a continuidade das práticas criminosas e evitar a responsabilização de seus integrantes .
Entre as estratégias adotadas estavam fraude processual, manipulação de procedimentos investigativos e destruição de provas no âmbito de inquéritos policiais . Em um dos episódios, investigadores identificaram que um disco rígido (HD) apreendido foi substituído dentro da própria delegacia por outro dispositivo sem dados incriminatórios .
Lavagem de dinheiro com vale-refeição
Um dos métodos mais sofisticados de lavagem de dinheiro descobertos pela investigação envolvia a conversão de valores em espécie – oriundos do tráfico de drogas – em créditos de vale-refeição . O dinheiro vivo era usado para adquirir cartões de benefícios, que posteriormente eram utilizados em padarias e mercadinhos de fachada .
Esses estabelecimentos transferiam os valores para empresas fictícias, permitindo que o dinheiro sujo fosse convertido em créditos com aparência lícita e reinserido no sistema financeiro . Nos registros analisados pelos investigadores, aparecem expressões como “despesas Ticket delegacia” para identificar pagamentos feitos a agentes públicos .
Hangar da polícia era ponto de propina
As investigações revelaram que o hangar do Serviço Aerotático da Polícia Civil, localizado no aeroporto do Campo de Marte, na zona norte da capital, era usado “sem qualquer constrangimento” como ponto de encontro para pagamento de propina a agentes públicos .
Uma mensagem de março de 2023 mostra um investigado repassando instruções específicas para que a propina fosse entregue a Rogério Coichev Teixeira, investigador lotado no setor aerotático . Entre os repasses identificados estão valores de R$ 50 mil, R$ 40 mil e R$ 60 mil pagos dentro do hangar da corporação .
Departamentos envolvidos
A investigação aponta que delegacias e setores estratégicos da polícia funcionavam como um “verdadeiro balcão de negócios” . Entre as unidades alvo de buscas estão o Departamento Estadual de Investigações Criminais (Deic), o Departamento de Polícia de Proteção à Cidadania (DPPC), o 16º Distrito Policial (Vila Clementino) e o 35º Distrito Policial (Jabaquara) .
No 16º DP, policiais usavam informações financeiras sigilosas para pressionar empresas. Uma transferência de R$ 33 milhões entre duas empresas teria sido usada como pretexto para abertura de investigação informal e posterior cobrança de propina .
No Deic, policiais são suspeitos de amenizar investigações para favorecer membros da organização criminosa. Documentos judiciais mencionam uma cobrança de R$ 5 milhões para interromper um inquérito .
Quem são os alvos
Entre os policiais civis que tiveram a prisão preventiva decretada estão :
- João Eduardo da Silva, delegado do 35º Distrito Policial (Jabaquara)
- Roldinei Eduardo dos Reis Baptista, investigador da 1ª Delegacia de Combate à Corrupção (DPPC)
- Rogério Coichev Teixeira, investigador do Serviço Aerotático (Campo de Marte)
- Ciro Borges Magalhães Ferraz, escrivão do 35º DP
Além deles, são alvos de prisão os doleiros Leonardo Meirelles e Meire Poza – ambos investigados na Operação Lava Jato –, Cléber Azevedo dos Santos (apontado como “Cléber do ticket” nas conversas), Robson Martins de Souza, Antônio Carlos Ubaldo Júnior, Paulo Rogério Dias e o advogado Marlon Antonio Fontana .
Pelo menos três carros de luxo das marcas Jaguar, Porsche e BMW estão entre os bens apreendidos na operação .

Reação das instituições
Em nota, a Secretaria da Segurança Pública de São Paulo informou que a Corregedoria da Polícia Civil participa da operação e que “a Polícia Civil não compactua com desvios de conduta por parte de seus integrantes e adotará todas as medidas legais e disciplinares cabíveis caso sejam confirmadas quaisquer irregularidades” .
O secretário da Segurança Pública, Osvaldo Nico Gonçalves, afirmou que apoia a operação e colocou mais de dez equipes à disposição para o cumprimento dos mandados .
A Corregedoria realizará correições extraordinárias em todas as unidades policiais envolvidas para apurar eventuais outros ilícitos ocorridos nas repartições e promover a responsabilização disciplinar dos agentes .
