A Polícia Civil de São Paulo pediu à Justiça autorização para exumar o corpo da policial militar Gisele Alves Santana, de 32 anos, encontrada morta com um tiro na cabeça no último dia 18, no apartamento onde vivia com o marido, no bairro do Brás, região central da capital. O pedido foi feito para esclarecer dúvidas levantadas durante a investigação e ainda não foi decidido pelo juízo .
A família da vítima, representada pelo advogado José Miguel Junior Silva, informou que não se opõe à exumação. “Isso se deu em função do médico legista. Ele deve amparar dúvidas e viu essa possibilidade. A família é com pesar que vê uma situação dessa, pois não é fácil, mas não se opõe e está para colaborar”, declarou o defensor .
A Justiça determinou sigilo sobre as investigações nesta quarta-feira (4) . O marido de Gisele, o tenente-coronel da Polícia Militar Geraldo Leite Rosa Neto, de 53 anos, foi afastado das funções a pedido próprio, conforme confirmou a Secretaria da Segurança Pública .
Versão do marido x evidências periciais
Em depoimento, o tenente-coronel afirmou que havia pedido o divórcio e que a esposa teria reagido de forma negativa, atentando contra a própria vida. Segundo ele, o disparo ocorreu enquanto estava no banho . O oficial declarou ter ouvido um barulho, encontrado Gisele caída na sala com a arma dele na mão, e acionado o resgate, a Polícia Militar e um amigo desembargador .
No entanto, os laudos periciais contradizem pontos centrais da versão apresentada. O exame necroscópico apontou que o tiro foi disparado com o cano da arma encostado no lado direito da cabeça da vítima . Além disso, o exame residuográfico não encontrou vestígios de pólvora nas mãos de Gisele – um indicativo técnico relevante para casos de disparo por arma de fogo .
A perícia também identificou sangue no box do banheiro, local onde o oficial afirmou ter tomado banho antes do disparo . Outro fato que gerou questionamento foi o retorno do tenente-coronel ao apartamento para tomar banho após a morte da esposa, solicitação inicialmente negada, mas posteriormente autorizada pelos policiais que atendiam à ocorrência .
Relacionamento abusivo e mensagens
Familiares da vítima relatam que Gisele vivia um relacionamento conturbado e sofria violência psicológica. A mãe da policial, Marinalva Vieira, afirmou que o genro proibia a filha de usar batom, salto alto e perfume, além de cobrá-la rigorosamente pelas tarefas domésticas .
Dias antes da morte, Gisele teria enviado mensagens ao pai pedindo ajuda. “Pai, vem me buscar porque eu não aguento mais”, escreveu a soldado, segundo relato da família . O pai chegou a se mobilizar para buscá-la, mas ela decidiu permanecer após dizer que tentaria conversar com o marido .
Conversas obtidas pela família e anexadas à investigação mostram que o tenente-coronel afirmava ter acesso e controle sobre as redes sociais da esposa. Em uma das mensagens, ele escreveu a um primo de Gisele: “Eu sou marido da Gisele. Eu tenho acesso às redes sociais dela e ela às minhas. Eu que printei as conversas suas com ela” .
Na sequência, demonstrou incômodo com a frequência do contato: “Acho que você está com muita conversa com a minha esposa.” O primo respondeu dizendo que conhecia Gisele desde a infância e que o diálogo era “uma conversa de primos”. O tenente encerrou a troca de mensagens de forma direta: “Não importa. Não quero que fique de conversa. Estamos conversando sobre isso e ponto final” .
Ainda segundo a família, quando Gisele mencionou a intenção de se separar, o oficial teria enviado uma imagem em que apontava uma arma para a própria cabeça .
Local “contaminado” e investigação
O advogado da família afirmou que o apartamento onde a policial foi encontrada morta “é contaminado e mexido” e “não foi preservado” . A Polícia Civil aguarda a conclusão dos laudos periciais para definir oficialmente a causa da morte.
A arma utilizada no disparo pertencia ao tenente-coronel, uma pistola Glock .40 da Polícia Militar . O caso, inicialmente tratado como suicídio, passou a ser investigado como morte suspeita e, na avaliação da família, deve ser apurado como feminicídio .
Gisele deixa uma filha de 7 anos, de um relacionamento anterior, que não estava no apartamento no momento do disparo .
