A Delegacia de Defesa da Mulher (DDM) de Adamantina, no interior de São Paulo, vive uma corrida contra o tempo para identificar os participantes de um grupo criminoso no Telegram. O que parecia ser mais uma comunidade virtual se transformou em um verdadeiro “criadouro de abusos”: com cerca de 900 integrantes, o espaço era usado para humilhar meninas e produzir conteúdo pornográfico a partir de fotos roubadas de suas redes sociais.
Nesta quinta-feira (12), a Polícia Civil atualizou o número de vítimas que já procuraram a delegacia. Em apenas 24 horas, o total saltou de 34 para 40 mulheres, todas moradoras da região. Muitas delas conseguiram acessar o grupo e encaminharam prints e informações que agora fazem parte do inquérito.
Segundo a delegada responsável pelo caso, o grupo funcionava como um verdadeiro tribunal do ódio. Os participantes retiravam imagens de perfis públicos das vítimas e as utilizavam para criar montagens e vídeos de conotação sexual. Em outros casos, as fotos eram simplesmente publicadas acompanhadas de comentários ofensivos, xingamentos e ataques à honra.
“Algumas vítimas tiveram vídeos produzidos, outras apenas tiveram as imagens compartilhadas em meio a um contexto degradante”, explicou a autoridade policial. O caso ganha contornos ainda mais graves porque parte das vítimas é composta por crianças e adolescentes.
Os crimes e as penas
A Polícia Civil investiga os envolvidos por uma série de crimes, que serão individualizados conforme a participação de cada um. Entre os artigos apurados estão:
- Difamação: para os autores dos comentários ofensivos;
- Importunação sexual: dependendo da natureza das interações;
- Artigo 218-C do Código Penal: que trata da divulgação de cena de estupro ou de cena pornográfica sem o consentimento da vítima;
- Artigo 241-A do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA): que criminaliza a divulgação de material envolvendo menores de idade.
O caso tramita em segredo de Justiça para preservar a identidade das vítimas e o andamento das investigações. Por isso, os nomes das envolvidas e dos suspeitos não foram divulgados.
Alerta: o perigo dos perfis abertos
A delegada fez um alerta importante para a população, especialmente para os jovens: a maioria das fotos utilizadas no grupo foi retirada de perfis abertos, ou seja, públicos, nas redes sociais. “A orientação é que as pessoas revisem as configurações de privacidade de suas contas. Muitas vezes, uma foto inocente postada em um perfil público pode ser utilizada para fins criminosos”, alertou.
Como denunciar
Vítimas ou familiares que suspeitem ter tido imagens compartilhadas podem procurar a Delegacia de Defesa da Mulher mais próxima. Outra ferramenta importante é o Ligue 180, a Central de Atendimento à Mulher. O serviço funciona 24 horas por dia e recebe denúncias de assédio e violência, além de oferecer acolhimento e orientação sobre a rede de atendimento.
O que diz o Telegram
Em nota oficial, o Telegram informou que adota “política de tolerância zero” contra materiais de abuso sexual infantil e compartilhamento não consensual de imagens íntimas. A plataforma afirmou que utiliza ferramentas de Inteligência Artificial para detectar e remover esse tipo de conteúdo automaticamente, especialmente em chats públicos.
A empresa destacou ainda que, desde 2018, mantém um banco de dados de hashes (impressões digitais digitais) de materiais criminosos e que pode fornecer endereços IP e números de telefone de suspeitos mediante solicitação judicial válida, o que deve auxiliar a Polícia Civil de Adamantina na identificação dos criminosos.
