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Depois do pedido de socorro: os bastidores da rede que protege a mulher em São Paulo

por Fabio Ishizawa
08/03/2026 às 12:30
em POLÍCIA
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O pedido de socorro pode atravessar a cidade por um fio de telefone. Pode ecoar em uma sala reservada da delegacia ou no espaço acolhedor do Instituto Médico-Legal (IML), durante um exame de corpo de delito.

No estado de São Paulo, o atendimento a mulheres e crianças vítimas de violência começa na escuta — muitas vezes ainda na ligação ao 190 — e se desdobra em uma rede especializada das Polícias Militar, Civil e Técnico-Científica. Um trabalho que vai além do protocolo e transforma técnica em cuidado.

“É um trabalho que foge de qualquer procedimento padrão.” A definição é de policiais que atuam nessa rede. Para elas, não se trata apenas de atendimento especializado, mas de uma imersão na vida e na dor daquela pessoa — uma prática constante de empatia, escuta ativa, análise cuidadosa e acolhimento sem julgamento.

Do pedido de “pizza” ao exame que comprova a agressão

O primeiro passo é identificar o tipo de violência que aquela mulher está enfrentando. Na Cabine Lilás, que funciona dentro do Centro de Operações da Polícia Militar (Copom), a soldado Amanda Caroline Estevan explica que cada ocorrência exige uma leitura atenta da situação.

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Quando uma vítima liga para o 190 relatando agressão ou ameaça, a chamada é direcionada às policiais do programa. Essas profissionais treinadas precisam estar sempre em alerta caso a vítima peça uma “pizza”, por exemplo. “Se ele desconfiar que ela está falando com a polícia, o pior pode acontecer. Precisamos agir imediatamente, mas com cautela”, explica a policial.

Nas Delegacias de Defesa da Mulher (DDMs), o atendimento é, na maioria das vezes, presencial — embora também possa ser feito online. Mas o trabalho vai além do registro do boletim de ocorrência ou do pedido de medida protetiva. Existe uma preocupação com todo o contexto de vida da vítima.

“Houve casos em que a mulher chegou aqui desesperada, agredida ou ameaçada, mas o agressor ficou em casa com o filho dela, com o animal de estimação ou com os pertences. Ela não pode voltar para lá. Então nós vamos, buscamos o que ela precisa, fazemos esse acolhimento. Depois, avaliamos se ela tem rede de apoio e, se não tiver, encaminhamos para acolhimento. Por fim, seguimos com os procedimentos para a responsabilização desse homem”, afirma a delegada titular da 1ª DDM, Cristine Nascimento.

A etapa seguinte pode passar pelo IML. Criada recentemente, a Sala Lilás oferece um espaço reservado para mulheres e crianças realizarem exames periciais, evitando constrangimentos e a revitimização.

“A ideia de que o IML faz apenas necropsia não é verdadeira. Em casos de violência doméstica, os laudos produzidos a partir dos exames são fundamentais para embasar juridicamente o processo e contribuir para a condenação do agressor”, explica a médica-legista Cristiane Coelho.

No espaço reservado, a vítima não precisa dividir ambiente com familiares enlutados, pessoas feridas em outras ocorrências ou até mesmo com o próprio agressor.

O impacto na vida pessoal das policiais

Atuar na rede de proteção também transforma quem está do outro lado do atendimento. A delegada Cristine, há 13 anos na unidade especializada, afirma que a experiência moldou até a forma como educa o filho.

“Quando conversamos com mulheres que vivem realidades tão difíceis, aprendemos a valorizar o que temos. Quando meu filho reclama de algo sem importância ou reproduz alguma fala machista, a intervenção é imediata. As conversas sobre respeito, especialmente com as mulheres, são constantes.”

Para a soldado Caroline e a médica-legista Cristiane, o impacto também atravessa a vida social. Amigas e familiares passaram a buscar orientação, a repensar relações e a identificar sinais de violência antes que a agressão física aconteça.

“Antes, a gente achava que violência era só a agressão física. Mas começa muito antes: no controle da roupa, da maquiagem, das finanças, das amizades, do contato com a família. Ele vai isolando essa mulher até que ela dependa totalmente dele”, explica Cristiane.

“Ela vai perdendo o brilho, sendo sugada. Às vezes, aceita a agressão porque acredita que ele tem esse direito. Esse é um entre tantos outros fatores que faz ser tão complexo combater a violência doméstica”, completou. (Por Isabelle Amaral/SSP-SP)

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