Um embate público envolvendo o pastor Silas Malafaia e a senadora Damares Alves ganhou destaque nacional no começo desta semana, após declarações da parlamentar sobre a participação de líderes e templos evangélicos em esquemas de fraude contra o Instituto Nacional do Seguro Social (INSS). O episódio ocorreu no contexto das investigações conduzidas pela Comissão Parlamentar Mista de Inquérito do INSS (CPMI), que apura irregularidades em descontos indevidos e empréstimos consignados aplicados a aposentados e pensionistas.
O conflito teve início após entrevista concedida por Damares ao SBT News, no último domingo, 11 de janeiro. Na ocasião, a senadora declarou que a CPMI havia identificado “grandes igrejas” e “grandes pastores” envolvidos nos esquemas investigados. Segundo ela, a comissão também enfrenta pressões recorrentes para não avançar nas apurações, com apelos de lideranças religiosas para que os trabalhos não prossigam a fim de evitar desgaste junto aos fiéis.
As declarações provocaram reação imediata de Silas Malafaia, que publicou vídeos nas redes sociais acusando a senadora de fazer denúncias sem apresentar provas e de generalizar acusações contra a comunidade evangélica. “A senhora guarde a sua língua. Se não tem os nomes e as provas, cale a boca. Se tem, denuncie pelo bem da igreja. A liderança evangélica está indignada com sua postura covarde e vergonhosa. A senhora não é digna de ser chamada evangélica”, esbravejou o líder religioso.
Em tom exaltado, o pastor exigiu a divulgação dos nomes das igrejas e líderes mencionados e classificou a postura da parlamentar como “leviana” e “sensacionalista”, afirmando que as falas manchariam a imagem do segmento religioso de forma ampla. “Ou a senhora dá os nomes dos grandes líderes evangélicos e das grandes igrejas envolvidas na roubalheira dos aposentados do INSS, ou é uma leviana linguaruda. Diga também quem pediu para a senhora calar a boca”, afirmou Malafaia
SILAS MALAFAIA
— Silas Malafaia (@PastorMalafaia) January 14, 2026
DESAFIA A SENADORA DAMARES A PROVAR O QUE FALA
Todo evangélico precisa assistir a este vídeo. pic.twitter.com/rpH4hbWPZ7
Diante das críticas, Damares divulgou, nesta quarta-feira (14), uma lista detalhada de igrejas e lideranças evangélicas que tiveram requerimentos de convocação ou de quebra e transferência de sigilo aprovados pela CPMI. A senadora destacou que as informações constam em documentos oficiais, são públicas e foram aprovadas formalmente pela comissão, com base em relatórios de inteligência financeira, dados da Receita Federal e outros elementos documentais.
Igrejas Mencionadas em Requerimentos da CPMI
Líderes Religiosos com Requerimentos Aprovados
André Machado Valadão, cantor gospel e líder da Igreja Batista da Lagoinha, é um dos principais nomes sob investigação. A CPMI solicitou quebra de sigilo bancário e fiscal do pastor, investigando possíveis transferências de valores vinculadas a esquemas fraudulentos e supostos desvios de recursos públicos.
Reportagens mencionam que empresários associados a Valadão realizaram doações vultuosas a pastores de igrejas evangélicas e eventos de grande porte. A Clava Forte Bank, fintech de André Valadão saiu do ar em dezembro de 2025, é suspeita de funcionar como canal de “valores desviados” do INSS.
A senadora reafirmou que a CPMI tem dever constitucional de investigar os fatos com imparcialidade e responsabilidade, ressaltando que é autora do requerimento que criou a comissão em 2025 e atua como membro titular desde o início dos trabalhos. Segundo Damares, a investigação não tem motivação religiosa ou ideológica, mas segue exclusivamente os indícios documentais levantados ao longo das apurações.
Após a divulgação da lista, Malafaia voltou a se manifestar, mantendo o tom crítico. O pastor questionou o uso das expressões “grandes igrejas” e “grandes pastores” na entrevista inicial e argumentou que os nomes divulgados não corresponderiam, em sua avaliação, a grandes denominações nacionais. Para ele, a forma como o tema foi apresentado gerou generalização indevida e prejuízo à imagem coletiva da Igreja Evangélica.
Fraude em escala nacional
A CPMI do INSS investiga um esquema de fraude em escala nacional que pode ter causado prejuízos estimados em ao menos R$ 6 bilhões a aposentados e pensionistas. Segundo a comissão, templos religiosos teriam sido utilizados como pontos de captação de beneficiários, que eram direcionados a contratos irregulares de empréstimos consignados e descontos indevidos, explorando a confiança dos fiéis em lideranças espirituais.
As investigações também apontam conexões com entidades financeiras e associações suspeitas, incluindo bancos e fintechs, além de clubes de benefícios. A comissão avalia a suspensão de cerca de 2 milhões de contratos considerados suspeitos e analisa milhares de documentos reunidos ao longo dos trabalhos.
De acordo com o cronograma oficial, a CPMI tem prazo para encerramento em março de 2026, com possibilidade de prorrogação por 60 dias. O presidente da comissão informou que um relatório preliminar com o balanço das atividades deve ser apresentado em fevereiro. Até lá, novos depoimentos e análises documentais estão previstos, em meio a um cenário de forte pressão política e institucional em torno das investigações.
