Uma parceria entre o UniSALESIANO, de Araçatuba (SP), e a Escola Superior de Agricultura “Luiz de Queiroz” (ESALQ/USP), em Piracicaba, está desenvolvendo uma tecnologia voltada a pesquisas sobre agricultura espacial. O projeto prevê a construção de três clinostatos 3D, equipamentos que permitem simular, na Terra, efeitos associados à microgravidade e estudar como plantas se desenvolvem em condições semelhantes às encontradas em missões espaciais.
A iniciativa envolve pesquisadores das áreas de Engenharia, automação e Ciências Agrárias e integra um projeto regular da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP). O trabalho também está alinhado às pesquisas da rede Space Farming Brazil, que reúne instituições brasileiras interessadas no desenvolvimento de sistemas para produção de alimentos em ambientes espaciais.
No UniSALESIANO, o projeto será conduzido no Laboratório de Robótica Assistiva, sob orientação do professor doutor Edval Rodrigues Viveiros, dos cursos de Engenharias. Duas das três unidades serão destinadas ao Laboratório de Microgravidade de Plantas da ESALQ/USP, enquanto a terceira permanecerá em Araçatuba para testes e análises.
Como funciona o equipamento
O clinostato 3D utiliza movimentos de rotação em diferentes eixos para reduzir a influência da gravidade sobre uma amostra biológica. Dessa maneira, os pesquisadores conseguem reproduzir em laboratório algumas condições relacionadas à microgravidade sem precisar enviar imediatamente o experimento ao espaço.
A tecnologia já vem sendo estudada por pesquisadores brasileiros. A Revista Pesquisa FAPESP explica que clinostatos podem produzir um efeito de microgravidade por meio da rotação contínua das amostras, permitindo a realização de experimentos na Terra. Pesquisadores da ESALQ/USP já utilizam esse tipo de equipamento em estudos relacionados ao cultivo de plantas.
No projeto envolvendo o UniSALESIANO, os equipamentos serão empregados principalmente em pesquisas de cultura de tecidos vegetais.
Segundo Edval Rodrigues Viveiros, a participação da instituição de Araçatuba começa com a avaliação do funcionamento dos equipamentos. A equipe deverá realizar simulações e testes envolvendo aspectos físicos, elétricos, mecânicos, mecatrônicos e de automação.
Uma das ferramentas previstas é a Análise de Elementos Finitos (FEA), realizada por meio do software Autodesk Fusion 360. A metodologia permitirá avaliar fatores como tensão, deformação, comportamento térmico e resistência da estrutura.
Os testes também deverão ajudar a identificar possíveis desalinhamentos, vibrações e pontos de concentração de calor que possam prejudicar sensores, componentes eletrônicos ou alterar as condições dos experimentos biológicos.
Três protótipos serão desenvolvidos
Depois da etapa de simulação, o projeto avançará para a construção e os ajustes dos três clinostatos.
Uma das unidades ficará instalada no UniSALESIANO. Com o equipamento em Araçatuba, os pesquisadores poderão realizar testes de funcionamento e verificar o desempenho do sistema antes e durante a operação contínua.
O controle da estabilidade é importante porque os experimentos podem permanecer em funcionamento por períodos prolongados. Conforme o projeto, os conjuntos formados pelos equipamentos e pelas estruturas que receberão as amostras vegetais deverão permanecer em condições controladas durante aproximadamente quatro semanas.
A proposta é identificar e corrigir eventuais problemas mecânicos, elétricos ou eletrônicos antes da utilização dos equipamentos nos experimentos de pesquisa.
O que a pesquisa busca descobrir
Um dos estudos associados ao projeto deverá analisar o desenvolvimento in vitro do cará-do-ar (Dioscorea bulbifera) submetido à microgravidade simulada e a diferentes espectros de luz produzidos por LEDs.
O objetivo é compreender como as plantas respondem a condições que se aproximam das encontradas fora da Terra. Esse conhecimento pode contribuir para pesquisas sobre sistemas agrícolas destinados a missões espaciais de longa duração.
A necessidade de produzir alimentos durante viagens espaciais é um dos desafios relacionados à permanência humana fora da Terra. Pesquisas brasileiras já trabalham com culturas como batata-doce, grão-de-bico e outras espécies consideradas importantes para sistemas de produção em ambientes controlados. A rede Space Farming Brazil reúne instituições brasileiras e estrangeiras nesse campo.
Agricultura na Lua e em Marte
O desenvolvimento de sistemas capazes de produzir alimentos no espaço está relacionado a futuras missões de longa duração, incluindo projetos que estudam a presença humana na Lua e, posteriormente, em Marte.
Um acordo de cooperação envolvendo a Agência Espacial Brasileira (AEB) e a Embrapa prevê pesquisas em agricultura espacial dentro do contexto do Acordo Artemis. A iniciativa busca desenvolver experimentos que possam inicialmente ser testados em condições simuladas na Terra e, posteriormente, avançar para testes em ambiente espacial.
A pesquisa brasileira também já alcançou testes fora da Terra. Em abril de 2025, sementes de grão-de-bico e plantas de batata-doce participaram de um voo suborbital da Blue Origin, permanecendo expostas à microgravidade durante parte da missão.
Mais recentemente, estudos da ESALQ/USP passaram a utilizar clinostatos para simular as condições de gravidade encontradas no espaço e investigar plantas que possam apresentar características importantes tanto para futuras missões quanto para situações de estresse ambiental na Terra.
Tecnologia que também pode ter aplicação na Terra
Embora o projeto tenha como referência a agricultura espacial, os pesquisadores também avaliam possíveis aplicações dos conhecimentos produzidos para o cultivo de plantas no planeta.
A compreensão de como as plantas respondem a diferentes condições de gravidade, iluminação e estresse pode contribuir para sistemas de cultivo controlado e tecnologias agrícolas desenvolvidas para ambientes com condições adversas.
O professor Paulo Hercílio Viegas Rodrigues, da ESALQ/USP, destaca que a parceria com o UniSALESIANO permitirá aprimorar a tecnologia utilizada para gerar microgravidade e gravidade relativa por meio da clinorrotação. Segundo ele, o equipamento será importante para estudar o comportamento das plantas em condições relacionadas às viagens espaciais e ao cultivo em futuras estruturas na Lua e em Marte.
Para Araçatuba, a participação no projeto amplia a atuação do UniSALESIANO em pesquisas que integram Engenharia, automação, tecnologia e Ciências Agrárias, com uma das unidades do equipamento permanecendo na cidade para desenvolvimento e testes.

