O estado de São Paulo registrou 142 feminicídios entre janeiro e junho de 2026, número 10% maior que o contabilizado no mesmo período de 2025, quando foram registradas 129 mortes. O crescimento está concentrado principalmente no interior paulista, que respondeu por cerca de 69% dos casos no primeiro semestre, segundo levantamento do Instituto Sou da Paz com base em dados da Secretaria da Segurança Pública (SSP-SP).
Os números foram divulgados no contexto dos 20 anos da Lei Maria da Penha, completados nesta sexta-feira (7). Sancionada em 2006, a legislação criou mecanismos para prevenir e combater a violência doméstica e familiar contra a mulher e se tornou uma das principais referências jurídicas brasileiras sobre o tema.
Interior concentra crescimento
No interior do estado, foram registradas 86 vítimas de feminicídio nos primeiros seis meses de 2026, contra 71 no mesmo período do ano passado. O aumento foi de 21,1%.
O cenário é diferente do observado na capital e na Grande São Paulo. Na cidade de São Paulo, o número de vítimas caiu de 31 para 24, uma redução de 22,6%. Já nos municípios da região metropolitana, houve queda de 27 casos para 20, recuo de 25,9%.
Com isso, a participação do interior no total de feminicídios registrados no estado aumentou no período analisado.
O Instituto Sou da Paz também compara os números de 2026 com os registrados em 2022, primeiro ano considerado no levantamento para avaliar a evolução durante a atual gestão estadual. Naquele ano, São Paulo havia contabilizado 83 feminicídios no primeiro semestre. O total de 142 casos em 2026 representa aumento de aproximadamente 71%.
Segundo levantamento divulgado anteriormente pelo instituto, o interior já havia apresentado crescimento expressivo no primeiro trimestre de 2026. Entre janeiro e março, foram 60 feminicídios na região, contra 34 no mesmo período de 2025.
Outras formas de violência também aumentam
Além dos feminicídios, os dados apontam crescimento em outros crimes praticados contra mulheres.
As ocorrências de lesão corporal dolosa passaram de 8.079 no primeiro semestre de 2025 para 11.301 nos seis primeiros meses de 2026. O aumento foi de aproximadamente 40%.
Também houve crescimento nos registros de estupro contra mulheres. Foram 7.066 ocorrências no primeiro semestre deste ano, ante 6.717 no mesmo período de 2025.
Do total registrado em 2026, 5.377 casos foram classificados como estupro de vulnerável, o equivalente a 76% das ocorrências. A classificação inclui situações envolvendo crianças e adolescentes com menos de 14 anos e pessoas que, por determinadas circunstâncias, não conseguem oferecer resistência.
Considerando os 7.066 registros de estupro contra mulheres no primeiro semestre, a média corresponde a aproximadamente um caso a cada 37 minutos no estado.
Dados nacionais
O aumento dos feminicídios ocorre mesmo em um cenário nacional de redução das mortes violentas intencionais. Dados do Anuário Brasileiro de Segurança Pública, divulgados em julho de 2026, apontaram queda de 8,2% nas mortes violentas intencionais no país em 2025, enquanto os feminicídios tiveram alta de 4%.
O Instituto Sou da Paz ressalta, em suas análises sobre os dados paulistas, que a distribuição territorial dos casos é desigual e que o crescimento observado no interior deve ser considerado na avaliação das políticas de prevenção e enfrentamento da violência contra a mulher.
Os números utilizados no levantamento são baseados nos registros oficiais da Secretaria da Segurança Pública de São Paulo. Os casos classificados como feminicídio ainda passam pelos procedimentos de investigação e responsabilização previstos na legislação.
A Lei Maria da Penha completa duas décadas como um dos principais instrumentos legais de proteção às mulheres vítimas de violência doméstica e familiar no país.

