A Polícia Federal (PF) afirma que uma organização criminosa atribuída ao banqueiro Daniel Vorcaro estruturou um esquema para contratar influenciadores digitais e jornalistas com o objetivo de defender o Banco Master nas redes sociais e criticar publicamente o Banco Central. Segundo a investigação, as propostas de contratação poderiam chegar a R$ 2 milhões. As informações constam na decisão do ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), que autorizou uma nova fase da Operação Compliance Zero.
As medidas determinadas pela Justiça incluíram mandados de busca e apreensão contra o publicitário Thiago Miranda Silva, apontado pela PF como o principal coordenador da estratégia de comunicação. Conforme os investigadores, o plano recebeu o nome de “Projeto DV”, em referência às iniciais de Daniel Vorcaro, e tinha como finalidade impulsionar conteúdos favoráveis ao Banco Master e contestar as medidas adotadas pelo Banco Central em relação à instituição financeira.
De acordo com a Polícia Federal, influenciadores e jornalistas eram inicialmente convidados para participar de um suposto projeto de gerenciamento de reputação. Antes de conhecerem o verdadeiro objetivo da contratação, precisavam assinar um acordo de confidencialidade cuja quebra previa multa de R$ 800 mil. Somente após essa etapa eram informados de que deveriam produzir vídeos, publicações e outros conteúdos defendendo o Banco Master e sustentando que a instituição estaria sendo alvo de medidas injustas por parte do Banco Central.
Entre os depoimentos reunidos pela investigação está o do vereador Rony Gabriel. Segundo ele, um representante da empresa UNLTD o procurou para participar de um suposto projeto de gerenciamento de reputação de um importante executivo. Após assinar o acordo de confidencialidade, afirmou ter descoberto que o trabalho consistia na produção de conteúdos favoráveis ao Banco Master. A PF também sustenta que pessoas que recusavam participar do projeto passavam a ser monitoradas, intimidadas e coagidas por meio da utilização de informações pessoais obtidas de forma ilícita.
As investigações apontam ainda que os pagamentos aos influenciadores eram realizados por Thiago Miranda. Em depoimento, ele confirmou que efetuava os repasses e declarou que os recursos tinham origem na venda de parte do portal Léo Dias, em uma operação estimada em R$ 3,5 milhões, com valores transferidos pela empresa Super Empreendimentos e Participações, ligada a Daniel Vorcaro. A Polícia Federal, no entanto, afirma que o dinheiro teria origem nas supostas fraudes financeiras investigadas na Operação Compliance Zero, que resultou na prisão do banqueiro em novembro de 2025.
Segundo Thiago Miranda, ele conheceu Daniel Vorcaro durante a negociação envolvendo o portal Léo Dias. Ainda conforme seu depoimento, após a primeira soltura do banqueiro apresentou um plano de reestruturação de imagem e gerenciamento de crise, iniciativa que deu origem ao chamado Projeto DV. O planejamento previa a divulgação de conteúdos relacionados à prisão de Vorcaro e às investigações envolvendo o Banco Master.
Além da estratégia de comunicação, a Polícia Federal descreve um suposto esquema de vigilância contra pessoas consideradas obstáculos aos interesses do grupo. Entre os alvos estaria a jornalista Malu Gaspar, do jornal O Globo. Conforme a investigação, foram levantadas informações financeiras, patrimoniais e familiares da profissional com o objetivo de constrangê-la e desacreditar seu trabalho. O mesmo tipo de monitoramento teria sido realizado contra o executivo Milton Maluhy Filho e sua esposa. Mensagens apreendidas também indicariam que Daniel Vorcaro solicitou um levantamento sobre o executivo, pedido que teria resultado na elaboração de um dossiê.
Os investigadores afirmam ainda que Thiago Miranda mencionou possuir proximidade com a companheira de Gabriel Galípolo, presidente do Banco Central, informação que, segundo a PF, poderia ser utilizada em benefício dos interesses do grupo. Também foram identificadas conversas que indicariam tentativas de pressionar jornalistas para retirar reportagens do ar. Em uma das mensagens analisadas, após a remoção de uma publicação, Thiago Miranda escreveu: “Mais um arquivado!”, conforme registrado nos autos da investigação.
Ao autorizar as novas diligências, o ministro André Mendonça afirmou que os elementos reunidos pela Polícia Federal ultrapassam “meras conjecturas” e justificam a adoção das medidas cautelares. A decisão autorizou a apreensão de celulares, computadores, documentos físicos e digitais, além da quebra dos sigilos bancário, fiscal e telefônico de Thiago Miranda. A Procuradoria-Geral da República manifestou-se favoravelmente às medidas. Na decisão, o ministro também afirmou que os indícios apresentados apontam para uma estrutura com “contornos de máfia”, voltada à intimidação de jornalistas, autoridades e outras pessoas consideradas contrárias aos interesses de Daniel Vorcaro.
Em nota, a defesa de Thiago Miranda negou todas as acusações. Os advogados afirmaram que o publicitário sempre atuou dentro da legalidade, da transparência e do respeito às instituições, sustentando que ele não praticou qualquer ato criminoso nem participou de ações destinadas a intimidar ou constranger terceiros. A defesa destacou ainda que a existência da investigação não representa prova de culpa, invocou o princípio da presunção de inocência e informou que Thiago Miranda permanece à disposição das autoridades para colaborar com as investigações e demonstrar a regularidade de sua atuação.
Nota enviada pela defesa de Thiago Miranda
“Acerca dos fatos amplamente divulgados no dia de hoje, a defesa de Thiago Miranda vem a público refutar, de forma categórica, a prática de qualquer ilegalidade por seu constituinte.
Thiago Miranda sempre pautou sua atuação profissional pela legalidade, pela transparência, pelo respeito às instituições e pelo livre exercício da liberdade de expressão, não tendo praticado qualquer ato criminoso, tampouco participado de conduta destinada a intimidar, coagir, constranger ou violar direitos de terceiros.
A defesa esclarece que a existência de investigação em curso não autoriza qualquer juízo antecipado de culpa, devendo ser rigorosamente preservadas as garantias constitucionais do devido processo legal, da ampla defesa, do contraditório e, sobretudo, da presunção de inocência. Thiago Miranda está inteiramente à disposição das autoridades competentes para prestar todos os esclarecimentos necessários, colaborar com a apuração dos fatos e demonstrar, no foro próprio, a absoluta regularidade de sua conduta.
Por fim, informa que a defesa acompanhará atentamente todos os atos do procedimento e adotará as medidas jurídicas cabíveis para assegurar que os fatos sejam apurados com equilíbrio, técnica e respeito às garantias legais, afastando-se conclusões precipitadas ou interpretações incompatíveis com a realidade.”

