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Vapes: você sabe o que está inalando?

por Fabricio Oliveira
29/07/2026 às 12:16
em COTIDIANO
mulher segurando um vape

Foto: NewAfrica/Depositphotos

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ANUNCIANTE

Embora proibidos no Brasil, os Dispositivos Eletrônicos para Fumar, mais conhecidos como vapes ou pods, continuam fazendo a cabeça de adolescentes e adultos. No Dia Mundial sem Tabaco, a Sociedade Brasileira de Pediatria lançou um alerta: três em cada dez adolescentes já experimentaram vapes.

Dados da Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE 2024) mostram um salto no uso de vapes. Em apenas cinco anos, o percentual de adolescentes brasileiros, de 13 a 17 anos, que experimentaram saltou de 17% para quase 30%.

O vape foi lançado pela indústria do tabaco como uma alternativa ao cigarro tradicional. Tornou-se um produto atraente para o mercado, mas um grande desafio para a saúde pública mundial. Nos últimos 10 anos, o mercado mundial de vapes saltou de 3,3 bilhões de dólares para 26 bilhões por ano.

Para a saúde pública, estudos já demostraram que representam um grave risco. Rápida dependência química e potencial de doenças respiratórias severas como a Lesão Pulmonar Associada ao Uso de Cigarro Eletrônico (em inglês, a sigla EVALI de Electronic Vape Associated Lung Injury) são alguns dos riscos.

Esses impactos imediatos preocupam sobretudo pelas perspectivas de desdobramentos tardios ainda desconhecidos. E são especialmente perigosos para jovens e adolescentes, criando uma nova geração de dependentes de nicotina.

Primeiro estudo abrangente sobre qualidade dos vapes no Brasil

Diante desse cenário, nós, pesquisadores do Laboratório de Química Atmosférica da PUC-Rio em parceria com a Universidade Federal do Rio Grande, fomos analisar uso de Dispositivos Eletrônicos para Fumar (DEFs) no país. E acabamos de publicar o primeiro estudo abrangente sobre o tema.

Analisamos os e-liquids, que são os líquidos utilizados em vapes que, quando aquecido pela bateria do dispositivo, se transformam em aerossol para inalação.

Os e-liquids incluídos em nosso estudo foram coletados por meio de doações diretas de usuários e categorizados sistematicamente por sua origem: Brasil, China, Europa, Paraguai e Estados Unidos.

Apenas amostras lacradas foram classificadas, organizadas em grupos e analisadas. Os códigos das regiões de origem, a proporção de glicerina vegetal e propilenoglicol e o teor de nicotina descritos na embalagem foram avaliados.

Devido a diferenças na regulação e no controle de qualidade, apenas amostras de líquido vendidas em refis de reabastecimento foram utilizadas na pesquisa.

Importante esclarecer que o conjunto geral de amostras doadas é de materiais disponíveis no Brasil, seja por meio de contrabando, produção ilegal, ou após passagem pela alfândega, como material para consumo individual.

Comparamos amostras de e-liquids com status regulatório bem diferentes no país de origem. Foram analisadas amostras do Reino Unido e dos Estados Unidos com venda legal e fiscalização variável. E amostras do Brasil e do Paraguai, que são países com venda e consumo proibidos e onde não há controle de qualidade rigoroso.

Para as avaliações de toxicidade, utilizamos uma levedura, Saccharomyces cerevisiae, e células cardíacas de ratos (cardiomioblastos H9c2).

As evidências confirmaram que os e-liquids têm perfis de toxicidade distintos, que não dependem de sua origem e a regulação do mercado. Os resultados mostraram que as amostras de e-liquids do Paraguai apresentaram toxicidade comparável a de amostras da Europa.

Vale esclarecer que os aditivos presentes nos e-liquids, como essências industriais (alimentícias ou cosméticas e seus solventes) e a nicotina (seja na forma de sal ou base livre) provocam estresse oxidativo, que representa um desequilíbrio entre a produção de radicais livres e a capacidade do corpo de neutralizá-los.

Esse excesso danifica células, proteínas e o DNA, acelera o envelhecimento precoce e aumenta o risco de doenças crônicas, como problemas cardiovasculares e neurodegenerativos.

Acreditamos que a regulamentação da venda do produto não resolve o problema da toxicidade. Ação imediata e maior conscientização pública é necessária, independente se o país permite ou não a venda.

Métodos alternativos e de baixo custo para controle da qualidade

Em um outro estudo do nosso grupo da PUC-Rio, desta vez, em parceria com o Centro de Tecnologia da Indústria Química e Textil do Senai, procuramos desenvolver métodos analíticos rápidos para verificar as proporções dos principais solventes, a glicerina vegetal e o propilenoglicol, presentes na composição dos e-liquids.

O controle de qualidade da composição destas substâncias é um problema. Nem sempre o que está escrito na embalagem do vape reflete a composição do produto, o que também é motivos de grandes preocupações.

Normalmente, 95% de um e-liquid é constituído por uma mistura de glicerina vegetal e de propilenoglicol. Importante esclarecer que o propilenoglicol é mais tóxico que a glicerina vegetal. E, por isso, compreender as proporções é importante. Encontramos, por exemplo, proporções de 70:30, 50:50 ou 30:70. Os 5% restantes compreendem os compostos de nicotina, aromatizantes alimentícios e agentes de resfriamento.

Técnica nova

Diante das dificuldades de impedir a comercialização ilegal, da rotulagem incorreta, dos custos significativos para testes tradicionais e a importância de se conhecer a composição para identificar a toxicidade dos e-liquids, nós resolvemos testar uma técnica nova para avaliar sua eficácia.

Ao invés de métodos químicos e destrutivos, testamos a espectrometria de infravermelho como um escâner rápido e não-destrutivo (conhecido pela sigla FTIR) das amostras, associado a um modelo estatístico para tornar mais fiel o espectro em proporções de cada ingrediente.

O modelo utilizado acertou quase 100% quando comparado ao método químico tradicional, a cromatografia.

Até onde sabemos, este é o primeiro estudo a propor e validar uma abordagem diferenciada para a determinação quantitativa das proporções glicerina vegetal e propilenoglicol em líquidos de cigarros eletrônicos.

Acreditamos que isso abre portas para testes mais frequentes e baratos e auxiliar em testes que dependam de uma avaliação previa da composição das amostras.

Importante ressaltar que esse nosso modelo ainda precisa de uma validação mais ampla com testes em mais amostras para ser considerado universal. Mas com certeza é uma tecnologia promissora e com indicativos importantes.


Nossas pesquisas foram financiadas pelo CNPq, Faperj e Capes.

Adriana Gioda, Departamento de Química, PUC-Rio e Carlos Leonny R. Fragoso, Pós-Doutorando no Laboratório de Química Atmosféria da PUC-Rio, PUC-Rio

This article is republished from The Conversation under a Creative Commons license. Read the original article.

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