Poucos araçatubenses das novas gerações imaginam que, no local onde hoje existe a movimentada rotatória entre a Avenida Brasília e a Avenida Joaquim Pompeu de Toledo, houve durante décadas uma grande represa. Alimentada pelas águas do Córrego Machadinho, a chamada Represa do Jardim Nova Iorque fez parte da paisagem urbana de Araçatuba e se tornou um dos pontos de lazer popular mais conhecidos da cidade em meados do século XX.
Antes da intensa urbanização da região, o cenário era bastante diferente do atual. O Córrego Machadinho corria livremente por uma área ainda marcada por chácaras, terrenos abertos e vegetação abundante. O represamento de suas águas formava uma lagoa que, aos poucos, passou a ser frequentada por moradores de diferentes partes da cidade.
Hoje, a região é ocupada por avenidas, trânsito intenso, canteiros, redes de drenagem e empreendimentos. Mas, na memória de muitos moradores antigos, aquele espaço ainda guarda a imagem de um tempo em que Araçatuba convivia de maneira mais próxima com seus córregos, suas margens e seus ambientes naturais.
Um ponto de encontro da antiga Araçatuba

Nas décadas de 1950, 1960 e parte dos anos 1970, Araçatuba passava por um período de expansão urbana. A cidade crescia impulsionada pela agricultura, pela pecuária e pelo fortalecimento do comércio. Ao mesmo tempo, ainda eram poucas as áreas de lazer estruturadas disponíveis à população.
Nesse contexto, a Represa do Jardim Nova Iorque tornou-se uma alternativa acessível e democrática para o entretenimento das famílias araçatubenses. Em dias quentes, era comum ver crianças, jovens e adultos reunidos às margens da lagoa. Uns iam para nadar. Outros pescavam, brincavam ou simplesmente passavam a tarde observando a paisagem.
Os finais de semana tinham um movimento especial. Famílias se reuniam para piqueniques sob as árvores, enquanto crianças ocupavam as margens em brincadeiras simples, típicas de uma época em que a cidade tinha menos trânsito e mais contato direto com seus espaços naturais.
Segundo relatos preservados por moradores antigos, os jovens também usavam a represa como lugar de aventura. Alguns se lançavam nas águas com bicicletas, em brincadeiras que marcaram a memória de quem viveu aquele período. Eram cenas de uma Araçatuba em transformação, mas ainda marcada por hábitos comunitários e por formas espontâneas de lazer.
Com o tempo, a lagoa se consolidou como uma espécie de “clube natural” da população, muito antes da consolidação dos grandes clubes recreativos privados como principais espaços de convivência da cidade.
Espaço de fé e celebração
Além da importância recreativa, a antiga represa também teve papel relevante na vida religiosa de Araçatuba. Diversas igrejas evangélicas utilizavam o local para a realização de batismos nas águas.

A profundidade adequada e a relativa tranquilidade do ambiente favoreciam essas cerimônias, que frequentemente reuniam dezenas de pessoas. Os cultos ao ar livre, acompanhados por cânticos e orações, transformavam temporariamente a represa em um espaço de fé, celebração e encontro comunitário.
Para muitas famílias pioneiras da cidade, a Represa do Jardim Nova Iorque ficou associada não apenas ao lazer, mas também a momentos importantes de suas trajetórias religiosas. Assim, o local ocupou um lugar especial na memória de diferentes grupos da população araçatubense.
A urbanização e o desaparecimento da represa
Com o crescimento acelerado de Araçatuba nas décadas seguintes, a região do Jardim Nova Iorque passou por profundas transformações urbanísticas. A necessidade de ampliar a malha viária e melhorar a ligação entre bairros levou à readequação do curso do Córrego Machadinho.
Ao longo dos anos, o córrego passou por processos de canalização e obras de infraestrutura, especialmente na área da Avenida Joaquim Pompeu de Toledo, que se tornou uma das principais vias da cidade.
A antiga represa acabou sendo aterrada para permitir a implantação do sistema viário que posteriormente daria origem à grande rotatória que conecta a Avenida Brasília à Avenida Joaquim Pompeu de Toledo. O espaço antes ocupado pela água deu lugar ao asfalto, aos canteiros, às redes de drenagem e ao avanço imobiliário.
O antigo cenário de lagoa, árvores e margens frequentadas por famílias foi substituído por uma das regiões urbanas mais movimentadas e valorizadas de Araçatuba.
O Córrego Machadinho sob a cidade
Embora a represa tenha desaparecido da paisagem, o Córrego Machadinho continua fazendo parte da geografia urbana do município. Atualmente, seu curso percorre áreas densamente urbanizadas e acompanha trechos da Avenida Joaquim Pompeu de Toledo até alcançar o Ribeirão Baguaçu, dentro do Parque Ecológico Baguaçu.
Nos últimos anos, o córrego voltou a receber intervenções de recuperação, limpeza e obras de canalização destinadas à melhoria da drenagem urbana e da infraestrutura local. Sua permanência, ainda que muitas vezes pouco percebida no cotidiano, serve como lembrança de que antigos elementos naturais continuam presentes sob a cidade construída.
A história da Represa do Jardim Nova Iorque ajuda a compreender como Araçatuba se transformou. O que antes era espaço de lazer, convivência e contato com a natureza deu lugar a avenidas, rotatórias e novas formas de ocupação urbana.
Uma memória preservada
A antiga Represa do Jardim Nova Iorque desapareceu fisicamente, mas permanece viva na memória coletiva dos moradores mais antigos. Ela simboliza uma época em que os córregos ainda eram espaços de convivência, lazer e integração comunitária.
Sua história também revela uma característica marcante da evolução urbana de Araçatuba: a transformação gradual de ambientes naturais em áreas de circulação, moradia e desenvolvimento econômico.
Hoje, quem passa pela rotatória da Avenida Brasília dificilmente imagina que, sob o movimento constante dos veículos, existiu um dos pontos de encontro mais queridos da antiga Araçatuba.
Mais do que a lembrança de uma lagoa desaparecida, a história da Represa do Jardim Nova Iorque preserva parte da identidade da cidade e ajuda a manter viva a memória de lugares que fizeram parte da vida de gerações de araçatubenses.
Crédito editorial
Alceu Batista de Almeida Junior é advogado, memorialista e autor do Livro: Memórias de Araçatuba.

