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Fungo transmitido pelo arranhão do gato está presente em animais selvagens, mostra estudo

por Fabricio Oliveira
21/06/2026 às 10:42
em COTIDIANO
Foto: Divulgação/Governo de São Paulo

Foto: Divulgação/Governo de São Paulo

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O fungo causador da esporotricose, que normalmente é transmitido entre gatos e provoca sérias lesões na pele, foi encontrado nos órgãos internos de animais selvagens. O estudo apoiado pela Fapesp foi publicado em março na revista Mycopathologia.

Foram três as espécies detectadas, todas do gênero Sporothrix, incluindo uma que só existe no Brasil, Sporothrix brasiliensis. Além dela, foram encontradas S. globosa e S. schenckii, esta última predominante, encontrada em mamíferos e aves.

Os resultados sugerem que animais silvestres também podem ser reservatórios desses fungos, que causam sérias lesões em animais domésticos, mas que podem contaminar humanos, afetando a pele e podendo chegar ao sistema linfático.

“Não foi possível saber se os fungos estavam em sua forma patogênica nos animais silvestres, mas é evidente que estão circulando mais do que imaginávamos, com potencial risco para a saúde humana e animal”, explica Anderson Messias Rodrigues, professor da Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo (EPM-Unifesp) e coordenador do estudo.

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Rodrigues coordena o projeto “Epidemiologia molecular e perspectivas genômicas na evolução e propagação de patógenos fúngicos emergentes”, financiado pela Fapesp.

“Não pudemos realizar a histopatologia para confirmar a infecção, o que pode ser feito em futuros estudos. No entanto, conseguimos detectar o DNA do fungo nos tecidos internos, como fígado e coração, o que é um indício de que ele está circulando no organismo. Além disso, só foram avaliados órgãos anatomicamente íntegros e não expostos ao ambiente, o que poderia ser uma fonte de contaminação”, conta Steffanie Skau Amadei, primeira autora do estudo, que realiza doutorado na Universidade McGill, no Canadá.

As análises foram realizadas durante estágio de Amadei no Laboratório de Patógenos Fúngicos Emergentes, coordenado por Rodrigues na EPM-Unifesp. A detecção direta e precisa do material genético foi viabilizada por um ensaio molecular desenvolvido e validado anteriormente pelo grupo, também com apoio da Fapesp, que permite diagnosticar e diferenciar rapidamente as principais espécies emergentes de Sporothrix.

Outro ponto importante levantado pelo estudo é que regiões de transição entre áreas nativas, rurais e urbanas, em que os animais selvagens podem ter mais contato com os domésticos, apresentaram mais casos de Sporothrix.

“Estamos presenciando a emergência do Sporothrix em novos hospedeiros. O estudo abre uma avenida para novas pesquisas ao mostrar que os reservatórios do fungo estão muito além dos animais domésticos. A pressão humana sobre o ambiente está diluindo as fronteiras do que é rural, urbano e silvestre”, afirma Rodrigues.

O trabalho mostra ainda que a análise de animais mortos por atropelamento pode ser uma ferramenta inovadora e barata de vigilância em saúde, alinhada ao princípio de Saúde Única (abordagem integrada que reconhece a conexão entre a saúde humana, a saúde animal, a saúde vegetal e o meio ambiente). Estima-se que 1,3 milhão de animais silvestres morram atropelados diariamente no Brasil, mais de 475 milhões por ano.

Análises

As carcaças foram coletadas nas primeiras horas após o atropelamento em duas rodovias no estado do Paraná, como parte de um projeto de pesquisa sobre o potencial de animais silvestres como sentinelas de zoonoses. A iniciativa é liderada pelo Departamento de Medicina Veterinária Preventiva da Universidade Estadual de Londrina (UEL) desde 2016. Participaram ainda pesquisadores da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC-PR) e do Centro Médico Universitário de Utrecht, nos Países Baixos.

Os animais foram encontrados entre 2017 e 2023 ao longo de cerca de 530 quilômetros da BR-376 (estrada que liga Paraná e Santa Catarina), margeada por áreas de Mata Atlântica, e 150 quilômetros da PR-445 (principal ligação entre Londrina e Curitiba), às margens de áreas nativas de Campos Gerais e de propriedades rurais. No total, foram analisadas 178 amostras de tecidos de coração, fígado, pulmão e bexiga de 81 animais, sendo 39 mamíferos, 36 aves e seis répteis.

O DNA de espécies patogênicas de Sporothrix foi detectado em 11 animais, representativos das três classes amostradas. Os tecidos que testaram positivo para o fungo mais frequentemente foram o coração (seis) e fígado (cinco), sugerindo uma infecção primária ou que os animais são reservatórios para o fungo, podendo carregá-lo sem necessariamente desenvolverem doença.

A espécie S. schenckii foi a mais frequente, encontrada em oito amostras de sete animais. Os pesquisadores encontraram DNA da espécie fúngica em aves, mamíferos e mesmo em um réptil, a cobra-coral-falsa (Oxyrhopus spp.). Entre os mamíferos, havia uma espécie ameaçada de extinção, o gato-do-mato-do-sul (Leopardus guttulus).

S. brasiliensis, responsável pela maior parte dos casos de esporotricose no Brasil, foi encontrada apenas em duas aves. A espécie mais rara no país, S. globosa, foi detectada em uma cutia (Dasyprocta spp.), em aves e na coral-falsa. Em dois casos, os animais estavam infectados com duas espécies de fungo ao mesmo tempo.

“Existe um paradigma de que aves estariam protegidas de fungos patogênicos pelo simples fato de terem uma temperatura corporal alta, de até 42 °C, o que impossibilitaria a vida de fungos. Vimos nesse estudo que as espécies patogênicas suportam, sim, temperaturas corporais altas”, diz Amadei.

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