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Artigo: ‘Antigamente era a saudade’

por Hélio Consolaro
22/01/2026 às 13:29
em Hélio Consolaro
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Até outro dia, para velho parece que foi ontem, eu não saía de casa sem ficha de telefone público, chamado de orelhão porque a cabine parecia uma orelha, pois numa urgência lá estava o equipamento para ser útil.

Se servia ao bem, mas estava à disposição dos malandros também, pois os golpes eram dados pelos orelhões. Indicação de orelhão para um bairro era o pedido mais frequente de um vereador. Quando conseguia, dava uma festa.

Neste ano, 2026, os orelhões serão retirados, desafixados, pois os contratos de telefonia fixa serão encerrados com as operadoras. Nem sei se ainda existem usuários.  Não só ligavam, como também recebiam telefonemas, era apenas saber o número e combinar local e horário. Até o amor passava pelo orelhão.

Segundo os linguarudos, diziam que a convenção do PCdoB era feita debaixo de um orelhão de tão pouca gente. Na minha adolescência, fazer uma ligação interurbana era perder um dia de serviço. Pedia-se de manhã para o telefonema sair à tardezinha e falava-se aos gritos. Na Telesp, esquina das ruas Joaquim Nabuco com a 15 de Novembro (Araçatuba), havia cabines para a população mais pobre, sem telefone em casa, fazer suas ligações interurbanas.

Nas décadas 70/80, ter uma linha fixa em casa era sinal de riqueza. Havia locadoras de linhas e telefones fixos. O preço de uma linha dava para comprar um carro.

Com o advento do celular, décadas 90/00, o famoso tijolão, analógico, com baterias de consumo rápido, ter um na cintura era sinal de status. 

No ano 2000, fui obrigado a comprar um celular, pois passei a ser consultor de língua portuguesa do jornal Folha da Região. É o mesmo número até hoje, aumentando as casas à esquerda.

No início terceiro milênio, eu profetizava a meus alunos que em breve o telefone celular seria vendido em postos de combustíveis. Errei no tipo de estabelecimento, porque já são vendidos em quiosques.
A saudade do orelhão vai se aguçar com a retirada deles das ruas da cidade, a partir de então, vamos vê-los apenas nos museus e nas fotos. 

Na língua portuguesa do Brasil, o orelhão vai deixar rastro no cotidiano na expressão “cair a ficha” que ainda continua. Sujeito de raciocínio lerdo, que demora para chegar à conclusão, como os aparelhos cujas fichas eram colocadas e demoravam para entrar em ação, para dar sinal.

*Hélio Consolaro é professor, jornalista e escritor. Membro das academias de letras de Araçatuba, Andradina, Penápolis e Itaperun-RJ  

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