A recente redução anunciada pela Petrobras no preço da gasolina nas refinarias voltou a expor uma mudança estrutural no mercado brasileiro de combustíveis. Após a privatização da BR Distribuidora em 2019, a estatal deixou de atuar diretamente no varejo, perdendo capacidade de influenciar a formação do preço final pago pelo consumidor. No estado de São Paulo, mesmo com sucessivos cortes na refinaria, o valor cobrado nos postos seguiu em trajetória de alta nos últimos anos.
No fim de janeiro de 2026, a Petrobras anunciou uma redução de 5,2% no preço de venda da gasolina A para as distribuidoras, equivalente a R$ 0,14 por litro, levando o valor médio para R$ 2,57. O reajuste passou a valer no dia 27 de janeiro e foi o mais recente de uma série de reduções promovidas desde o fim de 2022.
Desde dezembro daquele ano, a Petrobras realizou 11 reajustes no preço da gasolina nas refinarias, sendo oito cortes e três elevações. No acumulado do período, o preço da gasolina A vendida às distribuidoras caiu 16,4%, passando de R$ 3,08 para R$ 2,57 por litro, segundo dados da ANP.
Apesar dessa trajetória de queda na origem, o consumidor não foi beneficiado. No mesmo intervalo, o preço médio do litro da gasolina nos postos subiu 37,1%, avançando de R$ 4,98 para R$ 6,33. A discrepância evidencia que os cortes realizados na refinaria não se converteram em alívio no bolso dos motoristas.
O impacto é ainda mais perceptível quando se observa o custo total do abastecimento. Em três anos, o valor para encher um tanque de 50 litros de gasolina aumentou R$ 67,50, considerando a alta média de R$ 1,35 por litro apurada pela ANP. O gasto pode ser maior dependendo do local de abastecimento. Na semana mais recente, o preço máximo de revenda no país chegou a R$ 9,29 por litro, registrado em postos de Barueri e Guarujá, em São Paulo.
Como o preço da gasolina é formado
A diferença entre o preço da refinaria e o valor cobrado nos postos pode ser explicada pela composição do preço final. No estado de São Paulo, estimativa divulgada pela Petrobras com base em dados públicos indica que, na semana de 25 a 31 de janeiro de 2026, o preço médio ao consumidor foi de R$ 6,18 por litro.
Desse total, a parcela da Petrobras, referente ao combustível que sai das refinarias, respondeu por 28,4% do valor final. O restante do preço é formado por outros componentes ao longo da cadeia. A mistura obrigatória com etanol anidro representou cerca de 16,4% do valor do litro. Já os tributos federais corresponderam a 10,7%, enquanto o ICMS estadual respondeu por 24,8%.
Além disso, as margens e custos de distribuição e revenda ficaram em torno de 19,6% do preço final. Segundo especialistas do setor, é nessa etapa que entram despesas com logística, operação, concorrência regional e estratégia comercial de distribuidoras e postos.
“Desde a tributação até chegar ao posto, existe um caminho completo que envolve logística, custos operacionais e a própria dinâmica regional, que pode afetar os valores”, afirma Renato Mascarenhas, diretor da Edenred Mobilidade.
Tributos e etanol limitam o repasse ao consumidor
A dinâmica tributária também ajuda a explicar por que reduções na refinaria não chegam integralmente às bombas. Em 1º de janeiro de 2026, entrou em vigor a atualização do ICMS “ad rem” sobre combustíveis, elevando o imposto da gasolina em R$ 0,10 por litro. Como se trata de uma alíquota fixa, o impacto é imediato.
“Quando o ICMS aumenta, o efeito é sentido rapidamente nas bombas, independentemente do preço praticado nas refinarias”, afirma Mascarenhas. “Mesmo em momentos de alívio na origem, a carga tributária pode neutralizar esse efeito no curto prazo.”
O custo do etanol anidro, cujo preço é livre e varia conforme oferta e demanda, também interfere no valor final da gasolina, especialmente em períodos de valorização do biocombustível.
O papel da BR antes da privatização
É nesse contexto que a privatização da BR Distribuidora ganha centralidade no debate. Antes da desestatização, concluída em etapas entre 2019 e 2021, a BR era o principal braço comercial da Petrobras, com atuação integrada do refino à revenda.
A empresa era a maior distribuidora de combustíveis do país, com uma rede superior a 7.700 postos, e exercia papel relevante na formação de preços. Sua política comercial funcionava como referência para o mercado, influenciando decisões de outras distribuidoras e pressionando o repasse de reduções ao consumidor final.
A presença de uma empresa estatal integrada permitia maior capilaridade, coordenação logística e capacidade de indução de preços, especialmente em momentos de queda nas refinarias. Com acesso direto ao consumidor, a Petrobras conseguia atuar “do poço ao posto”.
O que mudou após a venda da BR
Com a privatização, a BR passou a operar como Vibra Energia, sem vínculo societário com a Petrobras. Embora mantenha uma ampla rede de postos e contratos de uso de marca associados historicamente à estatal, a empresa passou a adotar estratégias comerciais próprias, orientadas por critérios de mercado e rentabilidade.
A saída da Petrobras do varejo alterou de forma estrutural a dinâmica de preços. Hoje, a estatal influencia diretamente apenas o valor do combustível no elo refinaria → distribuidoras. A precificação final passou a depender exclusivamente de decisões tomadas por empresas privadas ao longo da cadeia, incluindo distribuição e revenda.
Em entrevista recente ao programa Sem Censura, da TV Brasil, a presidente da Petrobras, Magda Chambriard, afirmou que a estatal foi criada para atuar de forma integrada e lamentou a interrupção desse modelo após a privatização da BR. “Com o acesso ao consumidor final, a Petrobras conseguia ajudar a formular o preço nas bombas. Quando a Petrobras sai da ponta, ela chega só até as refinarias”, disse.
Segundo Chambriard, mesmo quando a estatal reduz o preço na origem, “as distribuidoras em geral alargam suas margens e a queda não alcança o consumidor final”.
Limitações para reentrada no varejo
Em julho de 2025, reportagem da Reuters reforçou essa limitação ao informar que não há planos da Petrobras para retomar a atuação no varejo de combustíveis. De acordo com fontes ouvidas pela agência, existe uma cláusula de não concorrência válida até 2029, firmada no processo de privatização, que impede qualquer reentrada da estatal no segmento de postos durante esse período.
Postos contestam críticas
Representantes do setor de revenda, por sua vez, rejeitam a ideia de que os postos sejam os principais responsáveis pela falta de repasse. O presidente do Sindicato do Comércio Varejista de Derivados de Petróleo do Estado de São Paulo (Sincopetro), José Alberto Gouveia, afirma que os estabelecimentos teriam margem para reduzir, no máximo, R$ 0,06 dos R$ 0,14 cortados nas refinarias.
Ele também aponta que a concorrência irregular prejudica o mercado. Investigações recentes revelaram o uso de postos para lavagem de dinheiro, o que cria um “mercado paralelo” que não recolhe impostos nem cumpre obrigações trabalhistas. “Não é justo concorrer com um posto que não paga impostos. O mercado do honesto passa por uma fase muito difícil”, afirmou.
