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EDUCAÇÃO

Dia Nacional do Livro Infantil: leitura deve ser estimulada desde cedo

Neste domingo (18) comemora-se o Dia Nacional do Livro Infantil. A data foi escolhida porque, nesse dia, em 1882, nasceu o escritor Monteiro Lobato, considerado o pai da literatura infantil brasileira. A data celebra esse gênero literário e homenageia o escritor, autor de clássicos como Sítio do Pica-Pau Amarelo, O Saci, Fábulas de Narizinho, Caçadas de Hans Staden e Viagem ao Céu.

De acordo com a √ļltima pesquisa Retratos da Leitura do Brasil, o n√ļmero de crian√ßas leitoras cresceu de 2015 a 2019, per√≠odo em que 48% disseram que leem por gosto. A pr√°tica da leitura contribui para o desenvolvimento de capacidades como pensar, interpretar, falar, aprender e conviver.

Em tempos de uso de tantas telas, como tablets, celulares e televisão, e agora com o ensino remoto, os livros infantis ainda têm espaço na rotina das crianças? A doutora em educação pela Universidade de São Paulo Diva Albuquerque Maciel diz que sim.

 Estudantes participam do Ler - Sal√£o Carioca do Livro, na Biblioteca Parque, no centro do Rio.

Telas têm de ser usadas em favor do livro, e não como concorrentes, diz especialista  РTomaz Silva/Arquivo/Agência Brasil

‚ÄúAs telas s√£o grandes concorrentes do livro, mas temos que usar todos esses recursos em favor do livro, e n√£o como concorrente. O livro tem um formato muito importante para a forma√ß√£o da l√≠ngua escrita, temos que usar estrat√©gias para aliar, j√° que a l√≠ngua escrita precisa ser estimulada. Uma das estrat√©gias √© saber quais s√£o as motiva√ß√Ķes das crian√ßas, por exemplo, quais her√≥is e personagens elas buscam na internet, que possam estimular a leitura escrita de textos mais densos como gibis‚ÄĚ. Diva √© professora aposentada do departamento de psicologia escolar do desenvolvimento da Faculdade de Educa√ß√£o da Universidade de Bras√≠lia (UnB).

A pedagoga Daniela Denise Batalha Santini, que atualmente √© professora do 1¬ļ ano do ensino fundamental do Col√©gio Parque Sevilha, na zona leste de S√£o Paulo, afirma que, mesmo com a habilidade que o aluno de hoje tem de manusear telas, o livro ajuda muito a melhorar o interesse pela aprendizagem e a capacidade de concentra√ß√£o.

‚ÄúO livro f√≠sico tem seu valor e n√£o pode ser deixado totalmente para tr√°s. O livro f√≠sico precisa se fazer presente em sala de aula como instrumento palp√°vel. O sentir o livro, o explorar, o virar de p√°ginas fazem toda a diferen√ßa no dia a dia do aprendizado dos pequenos. Fora as experi√™ncias sensoriais, tem a visualiza√ß√£o, o concreto. Agu√ßar a curiosidade, proporcionar momento de troca‚ÄĚ, observa Daniela Denise.

Tamb√©m pedagoga, Fernanda Gadelha de Freitas Miranda √© professora na Escola Municipal de Educa√ß√£o Infantil 22 de Mar√ßo e no Centro de Educa√ß√£o Infantil Bryan Biguinati Jardim. Para Fernanda, o h√°bito da leitura precisa ser estabelecido desde a inf√Ęncia para que se formem cidad√£os aut√īnomos, questionadores e protagonistas de sua conduta e pensamentos. ‚ÄúAssim, acredito que a leitura, os livros infantis, sejam facilitadores desse processo. Costumo, todos os dias, oferecer aos meus alunos oportunidades de ampliar a vis√£o de mundo e seu repert√≥rio, com os livros que lemos.‚ÄĚ

Fernanda destaca que muitas crian√ßas, devido √†s condi√ß√Ķes sociais, n√£o t√™m acesso √†s tecnologias. ‚ÄúO livro impresso ainda √© uma ferramenta facilitadora nesse processo, pois permite que mais adultos e crian√ßas sejam contemplados nesse universo. Para a crian√ßa, o concreto do livro impresso √© mais atraente e aceit√°vel, ao contr√°rio do adulto, que tende buscar √† praticidade do e-book, por exemplo.‚ÄĚ

Incentivo e diversidade tem√°tica

Diva Maciel considera fundamental o papel dos professores para estimular a leitura pelas crian√ßas. ‚Äú√Č preciso que os professores fa√ßam pesquisa dos livros que podem ser adotados em sala de aula, mesmo na sala remota. Ver o que elas est√£o buscando espontaneamente nas s√©ries da TV, da internet. E, a partir da√≠, oferecer bons textos, ler com elas numa roda de leitura, ou estimul√°-las a escrever e ler para turma na roda, por exemplo.‚ÄĚ

√Č o que tem feito a professora Daniela, que trabalha os livros de forma descontra√≠da, em de rodas de conversa. ‚ÄúCom momentos dirigidos e outros momentos livres, fazendo sempre um trabalho educativo, alinhando com o conte√ļdo desenvolvido, com temas atuais e muitas vezes trazendo discuss√Ķes acerca de fatos do cotidiano. O momento da roda de conversa √© m√°gico e encantador. √Č gratificante ver os pequenos interagindo com este universo da leitura, com seus colegas e professores.‚ÄĚ

A professora Diva chama a aten√ß√£o tamb√©m para o est√≠mulo √† diversidade √©tnica e cultural na literatura infantil. ‚ÄúLemos muito para os nossos filhos as hist√≥rias cl√°ssicas dos contos de fadas, mas, hoje em dia, temos que lembrar que s√£o hist√≥rias que est√£o no formato de reis e rainhas brancos. Hoje sabemos que √© importante trazer os contos em que os personagens s√£o negros e t√™m outras etnias, e j√° existe muita coisa publicada. N√≥s somos um pa√≠s miscigenado. No entanto, a cultura branca continua sendo dominante. √Č importante trazer outros tipos de livros infantis para ler para as nossas crian√ßas‚ÄĚ.

Diva indica a Afroteca Audiovisual Infantil, com livros com diversidade √©tnica e destaca que o Brasil √© rico nessa diversidade cultural. ‚ÄúN√≥s temos uma oferta de grandes textos que envolvem a nossa cultura popular, nosso cancioneiro, nossos personagens. Monteiro Lobato foi um autor que utilizou bastante essas possibilidades.‚ÄĚ

Nova tributação pode desestimular leitura

Apesar de pais e professores incentivarem a leitura, a proposta de nova tributa√ß√£o sobre os livros pode desestimular a compra deles. O governo federal prop√īs, em julho do ano passado, um projeto de lei para fus√£o do Programa de Integra√ß√£o Social (PIS) e da Contribui√ß√£o para o Financiamento da Seguridade Social (Cofins) em um √ļnico tributo, a Contribui√ß√£o sobre Bens e Servi√ßos (CBS). Entre as altera√ß√Ķes est√£o o fim da isen√ß√£o do PIS e da Cofins para o mercado de livros e a cobran√ßa da CBS com al√≠quota de 12%. O Congresso Nacional estuda a proposta no √Ęmbito da reforma tribut√°ria.

O presidente da Associa√ß√£o Brasileira de Editores e Produtores de Conte√ļdo e Tecnologia Educacional (Abrelivros), √āngelo Xavier, afirma que o livro impresso √© uma ferramenta muito importante na forma√ß√£o da crian√ßa e defende a manuten√ß√£o da imunidade tribut√°ria dos livros no pa√≠s. Xavier considera ‚Äúum equ√≠voco‚ÄĚ a proposta de reforma encaminhada pelo Minist√©rio da Economia que tributa os livros.

‚ÄúSeja para os livros infantis, seja para a literatura adulta, para livros escolares, qualquer que seja a categoria de livros, isso vai dificultar ainda mais o acesso. As fam√≠lias menos favorecidas v√£o sofrer ainda mais. Vai haver uma concentra√ß√£o muito grande e poucos lan√ßamentos de novos autores pelas editoras. Tudo que temos de positivo no mercado de livro tende a cair por terra com essa tributa√ß√£o. E muitas empresas, editoras, livrarias e distribuidoras tendem a ter dificuldades e at√© podem quebrar com a nova pol√≠tica, que esperamos que n√£o se concretize‚ÄĚ, afirma.

Como escolher um bom livro infantil

A coordenadora de Engajamento Social e Leitura do Ita√ļ Social, Dianne Melo, d√° dicas de como escolher um bom livro infantil. A primeira √© a qualidade textual: o registro lingu√≠stico deve ser liter√°rio, ou seja, a linguagem √© conotativa, utiliza figuras, e h√° preocupa√ß√£o com a escolha das palavras. ‚ÄúA constru√ß√£o textual deve estimular uma boa leitura em voz alta por parte do mediador.‚ÄĚ

O projeto gr√°fico deve ter tamb√©m qualidade visual, ou seja, ter capacidade de motivar e enriquecer a intera√ß√£o do leitor com o livro; a fonte deve oferecer boa legibilidade e as ilustra√ß√Ķes n√£o devem refor√ßar estere√≥tipos sociais, hist√≥ricos, raciais e de g√™nero.

√Č preciso ainda ter qualidade tem√°tica: o conte√ļdo n√£o deve ser “didatizante” e sim dialogar com o imagin√°rio infantil. ‚Äú√Č importante contemplar a diversidade de contextos culturais, sociais, hist√≥ricos e econ√īmicos, al√©m de possibilitar a reflex√£o das crian√ßas sobre si pr√≥prias, os outros e o mundo que as cerca‚ÄĚ, completa a especialista.

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