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Semana agitada

A Semana em Fakes: policiais entram na mira das fake news

Edgard Matsuki, editor do Boatos.org, fala sobre notícias falsas que incitam agentes a desrespeitar medidas de restrição contra a Covid-19

No último domingo (29/3), um policial militar foi morto em Salvador após ter um surto e, com o rosto pintado, atirar para cima e em colegas policiais. O ato, que ainda está sob investigação, escancarou um tipo de fake news que ganhou força nos últimos dias: as notícias falsas que têm como objetivo influenciar a classe policial.

Já no dia seguinte à morte do PM, um vídeo de uma multidão marchando começou a ser compartilhado como se fosse da Polícia Militar da Bahia marchando em direção ao Palácio do Estado (sede do governo estadual) para pedir a renúncia do governador de Rui Costa. Só havia um detalhe: o vídeo em questão era de 2012, da torcida Gaviões da Fiel, e nada tinha a ver com policiais se insurgindo contra o governador petista.

Essa notícia falsa, que (assim como tantas outras) sugere um “motim” por parte da polícia (mais ou menos como acontece com as notícias falsas que incitam uma inconstitucional e antidemocrática “intervenção militar”), não foi a única a tentar “despertar” a classe. Nos últimos dias, detectamos, no mínimo, mais cinco notícias falsas do tipo.

Uma delas é antiga e sempre circula em situações nas quais policiais estão na mira de quem quer influenciar com fake news. Trata-se de um vídeo que aponta que “policiais civis e militares invadiram o Congresso hoje”. Esse boato (um clássico, por assim dizer) já foi desmentido em texto (aqui aqui) e em vídeo.

As outras histórias estavam mais ligadas à pandemia da Covid-19 e a principal pauta dos bolsonaristas atualmente: o desejo de que as medidas de restrição (fundamentais para evitar o contágio pelo novo coronavírus) “acabem”.

Duas delas remontavam (falsos) “exemplos” da Europa. Uma apontava que policiais italianos haviam resolvido não atuar mais em protestos contra o lockdown. Outra apontava que policiais franceses se negaram a atuar nas medidas contra o isolamento social ao “jogarem algemas no chão”. Nos dois casos, os vídeos que circulavam eram antigos e também não tinham nada a ver com medidas de restrição impostas por governos.

Outra fake news que circulou na internet foi um texto viral atribuído a um “delegado”. Em tom ameaçador, o texto aponta que policiais não devem reprimir atos que vão contra decretos que visam prevenir a contaminação por Covid-19 sob pena de serem (junto com governos estaduais e prefeituras) processados.

Por fim, tivemos acesso a mais um conteúdo alarmista. Um vídeo de policiais sendo apedrejados por manifestantes começou a circular junto com a descrição de que “é isso que virou a Argentina” (fazendo alusão ao país ter adotado medidas de restrição e ser governado por um presidente de centro-esquerda). Mais uma vez, trata-se de um vídeo antigo (de antes da “era Alberto Fernández” ou pandemia).

Todas essas fake news formam (na cabeça de quem planeja a disseminação em massa delas) uma tempestade perfeita: policiais incentivados a deixar de reprimir quem “fura” as medidas de restrição, instigados a desobedecer governadores e com raiva alguns políticos (como os de esquerda e membros do Congresso). Até que ponto esta estratégia vai funcionar, apenas o tempo e os próprios policiais poderão responder.

Trends da semana

As palavras mais buscadas no Boatos.org nos últimos sete dias foram, em ordem decrescente, Aliexpress, Ivermectina, Argentina, Vacina, Amazon, Alihouse, Kwai, Tribunal constitucional militar, China e Rancho Queimado.

Os desmentidos mais lidos do Boatos.org nos últimos 7 dias foram, em ordem decrescente, sobre Alexandre de Moraes deixar o STF, sobre um vídeo falsamente atribuído aos filhos de Luciano Pavarotti, José Carreras e Plácido Domingo, sobre a AliExpress e a AliHouse ser uma estratégia da China para acabar com o Brasil, sobre a Nike ter lançado um tênis “do diabo” e sobre o link “ganhar dinheiro no Kwai” ser um golpe.

No Twitter, a matéria com maior engajamento foi a sobre o vídeo dos policiais franceses jogando algemas no chão falsamente atribuído ao lockdown. O conteúdo mais compartilhado da semana do Facebook era o que desmentia que cidades que zeraram casos de Covid-19 com o “tratamento precoce”.

No Instagram, o conteúdo de maior engajamento era o que desmentia que uma TV estava simulando um enterro no cemitério de Barra do Jucu para fazer o “teatro da Covid-19”. A matéria foi a mais vista no Telegram foi a que desmentia que o governador de Sergipe havia acabado com a propriedade privada no estado. No YouTube, o conteúdo mais visto da semana foi o que desmentia o boato de que a Nike havia feito um “tênis do diabo”.

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