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FIM DE ANO

Se beber, não abuse: moderação é essencial para reduzir os efeitos da ressaca

Cerca de 90% das pessoas que tomam mais de 5 doses de álcool em uma única ocasião já sofreram com ressaca no dia seguinte

Jack Andersen/Getty Images

“Quando certa manhã Gregor Samsa acordou de sonhos intranquilos, encontrou-se em sua cama metamorfoseado num inseto monstruoso”. É recorrendo ao trecho do clássico “A Metamorfose”, de Franz Kafka, que a designer gráfica Janaína Barbosa, 25, descreve o seu mais recente despertar por uma ressaca. O corpo, de alguma maneira, não reconhecia. Era como se uma mutação estivesse em curso e ela já não conseguisse cumprir tarefas banais que, habitualmente, faria sem esforço – como levantar-se da cama ou tomar o café da manhã. “Não fiz nada durante o dia, pois não estava dando conta de ficar em pé”, relata, completando que, naquela data, conviveu com persistentes dores de cabeça, náuseas e sensibilidade à luz. Como o personagem literário, a ilustradora pensou: “O que aconteceu comigo?”.

A resposta é relativamente simples: ela sofreu com uma “combinação de sintomas físicos e mentais, experimentada no dia seguinte a um único episódio de consumo excessivo”, na definição do Alcohol Hangover Research Group (AHRG), entidade científica fundada há uma década para melhor compreender o que é, afinal, a ressaca. Além dos sintomas de mal-estar citados por Janaína, a organização cita outros sintomas comuns a esse fenômeno fisiológico, como problemas de concentração, boca seca, tontura, vômito, cansaço, tremores, falta de apetite, sudorese, sonolência, ansiedade e irritabilidade. De acordo com pesquisadores, essas manifestações surgem quando a concentração de álcool no sangue se aproxima de zero – isto é, entre seis e oito horas após a bebedeira. E se, por um lado, os efeitos adversos não demoram muito para aparecer, por outro, podem demorar a ir embora. Em alguns casos, as dores de cabeça podem perdurar até 72 horas, informa o gastroenterologista e nutrólogo Bruno Sander. “Se esse consumo continuar, vai haver outros episódios, e a tendência do corpo é ficar cada vez pior”, acrescenta.

Há ainda evidências que sugerem que esse fenômeno fisiológico seja uma manifestação leve em pessoas não dependentes de síndrome de abstinência. “Para aqueles que são bebedores habituais, pode haver sintomas desse tipo, evidenciados por tremores e por uma ansiedade maior, que podem levar algumas pessoas a consumirem álcool para aliviar tais efeitos, ou seja, o comportamento de não parar de beber no intuito de não sofrerem com a abstinência e com a ressaca”, alerta o psiquiatra Guilherme Rolim.

E a verdade é que boa parte dessas sensações físicas e mentais nada agradáveis já foi experimentada pela esmagadora maioria dos bebedores. Segundo uma pesquisa de 1998 publicada na extinta revista norte-americana “Alcohol Health Res World”, 78% das pessoas que ingerem bebidas alcoólicas, independentemente de seu perfil de consumo, já sofreram com os dissabores de uma ressaca. Já entre os que bebem mais de cinco doses em uma única ocasião, o índice é ainda maior: 90% já foram atingidos por tais sintomas, conforme uma revisão literária de 2008 sobre o tema publicada no período “Alcohol and Alcoholism”. Vale registrar, o Centro de Informações sobre Saúde e Álcool (Cisa) considera que uma dose de bebida corresponde a 14 g de álcool puro, o equivalente a um copo de 350 mL de cerveja ou chopp com 5% de teor etílico, uma taça de 140 mL de 12% de teor etílico ou um shot de 45 mL de destilado com cerca de 40% de álcool.

Daí que, depois de datas celebrativas, como o réveillon, quando o consumo de álcool é socioculturalmente estimulado, é farta a busca por formas de curar o mal da ressaca. E não faltam fórmulas milagrosas que prometem resolver o problema. Contudo, todas elas são enganosas, garante Sander. Ele explica que não existem meios de aplacar uma ressaca de imediato, mas lista formas de amenizar seus impactos. “Quando a pessoa já acorda assim, o indicado é uma hidratação mais vigorosa, tomando bastante líquido, isotônico e água de coco, e também uma alimentação mais leve, rica em carboidratos em geral, para que ela não fique sobrecarregada por um processo de digestão. Descanso, sem atividades físicas intensas, também é uma boa saída. E, claro, pode-se tomar medicamentos sintomáticos: se está com dor de cabeça, um analgésico será bem-vindo, por exemplo”, aconselha.

Estratégias preventivas reduzem efeitos da ressaca

A única forma eficaz de reduzir os impactos da ressaca é deixar de consumir álcool, mas, se esta não for a melhor opção, estratégias preventivas podem ser adotadas. “O primeiro cuidado importante é ingerir bastante líquido antes, durante e depois da bebedeira. Isso ajuda porque o efeito principal da ressaca se dá pela desidratação, dado que bebidas alcoólicas têm efeito diurético, levando à perda de líquido, o que, consequentemente, aumenta o índice de álcool no corpo”, detalha o nutrólogo Bruno Sander. A ingestão de iogurte e de frutas como o morango antes de brindar 2021 também é uma medida válida. “Isso vai criar uma camada protetora no estômago, e a absorção do álcool vai acontecer de forma mais lenta e gradual”, informa, alertando ser fundamental não ingerir a bebida etílica de estômago vazio. “Assim, a glicose circulante no sangue da pessoa não vai ter queda tão brusca”, pontua.

Sander lembra que a ressaca pode ser mais intensa ou mais grave em pessoas que possuem algumas patologias. “Se a pessoa tem pancreatite crônica, se ela tem cirrose ou se tem algum tipo de hepatite, isso pode potencializar o efeito do álcool. É como se o corpo estivesse mais enfraquecido para reagir aos efeitos deletérios do álcool. Isso também acontece no caso de indivíduos com doenças crônicas e autoimunes, que estejam mais debilitadas, ou que possuam massa corporal menor”, observa.

Cuidado especial também deve ser observado no caso de pessoas com diagnósticos psiquiátricos, que podem sofrer com uma desestabilização de seus quadros de saúde em razão do uso de bebidas etílicas, havendo piora dos sintomas depressivos, instabilidade emocional e maior irritabilidade, adverte Guilherme Rolim. “O uso abusivo de álcool e a ressaca podem potencializar sintomas depressivos e a melancolia associada ao balanço de final de ano e à solidão de algumas pessoas, o que pode levar os pacientes a tomarem atitudes mais impulsivas, como autoagressões e tentativas de suicídio”, reforça o psiquiatra, aconselhando que “pessoas que não estiverem bem emocionalmente devem evitar beber nas festas de final de ano pelos riscos de piora do estado psíquico e suas consequências”.

Além da ressaca. Guilherme Rolim ainda assevera que o consumo excessivo da substância pode ser um fator de risco para o desenvolvimento de uma dependência alcoólica. “Habitualmente, quando se exagera no consumo de álcool, tem-se uma intoxicação que em doses mais elevadas pode levar ao coma, porque o álcool é um depressor do sistema nervoso central”, comenta. “Além disso, devemos destacar as agressões ao estômago pela ação direta no órgão, com risco de lesão aguda grave, assim como ao fígado e ao pâncreas, com risco de hepatite e pancreatite alcoólicas, respectivamente”, cita.

Ressaca: efeitos da intoxicação aguda pelo álcool

Um artigo publicado pelo portal do Centro de Informações sobre Saúde e Álcool (Cisa) em março deste ano detalha como o álcool age no organismo levando à ressaca. A causa dos sintomas desse fenômeno fisiológico, segundo o texto, é atribuída principalmente ao acetaldeído, “principal produto da metabolização do álcool. Como resultado, podem ocorrer diversas reações no corpo que vão compor o que se entende como ressaca”, tais como:

  • A perda de líquido causada pela desidratação leva à perda de eletrólitos, causando sede, sensação de boca seca e dores musculares;
  • O álcool leva a um aumento da produção de suco gástrico, causando irritação gastrintestinal, dor abdominal, náusea e vômitos;
  • Hipoglicemia induzida pelo álcool pode afetar o funcionamento cerebral, levando ao cansaço e mudanças de humor observados na ressaca;
  • A ação do álcool no organismo provoca ainda alterações no padrão e na qualidade do sono, levando à fadiga e alterações no ritmo circadiano.

O Cisa também detalhou as principais consequências da ressaca. De acordo com a publicação, as memórias de curto e longo prazo, a velocidade psicomotora e a atenção sustentada ficam prejudicadas. Entre os sintomas mais debilitantes aparecem a fadiga, a sonolência, a dor de cabeça e os problemas de concentração. Indicam gravidade maior a náusea e as dores de cabeça. Em curto prazo, os maiores prejuízos são os acidentes de trânsito e a baixa produtividade no ambiente de trabalho e de estudos. Em longo prazo pode haver alterações neurológicas, quando o consumo etílico ocorre na adolescência, e maiores chances de transtornos por uso de álcool.

Diante desse cenário, o psiquiatra Guilherme Rolim é enfático: “Seria muito interessante que se parasse de idolatrar a bebida alcoólica, que se fizesse uma campanha nacional sobre os riscos do consumo excessivo de álcool e que se proibisse a propaganda, nos moldes do que foi feito com o cigarro, o que contribuiu para uma redução considerável do consumo de tabaco e das consequências negativas pelo uso da substância. Beber menos e com moderação é sempre uma boa orientação”.

A cura da ressaca está próxima? Pesquisadores finlandeses da Universidade de Helsinque e da Universidade da Finlândia Oriental sustentam que sim. Um estudo ainda preliminar publicado na revista científica Alcohol and Alcoholism sugere que uma dose de 1.200 mg do aminoácido L-cisteína seria capaz de reduzir as náuseas e dores de cabeça relacionadas ao álcool, enquanto uma dose de 600 mg poderia aliviar o estresse e a ansiedade.

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