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Déjà vu?

Gripe espanhola x Covid: jornais antigos do Rio mostram semelhanças

Autoridades da época chegaram a acreditar que se tratava de simples gripe e criticaram a imprensa e o isolamento social.

O navio Demerara, que aportou no Rio — Foto: Cia das Letras

Autoridades públicas minimizando uma doença pandêmica, especialistas pregando o isolamento social (apesar da dificuldade de implementá-lo) e hospitais superlotados. O enfrentamento ao coronavírus no Rio em 2020 é semelhante ao vivido em 1918, durante a gripe espanhola, como mostram os jornais publicados há mais de um século.

Os historiadores apostam que a gripe espanhola aportou no Rio no navio Demerara, vindo da Inglaterra, no último ano da Primeira Guerra Mundial. Naquela época, não existia a figura do ministro da Saúde.

Carlos Seidl era o diretor geral de higiene do Brasil, um cargo com funções semelhantes. No fim de setembro daquele ano, Seidl garantia que, aparentemente, tudo estava sob controle.

Carlos Seidl era diretor de Saúde durante a gripe espanhola, cargo com funções semelhantes ao de ministro — Foto: Reprodução

“Até agora nenhum caso suspeito da influenza espanhola chegou (..) Fui pessoalmente a bordo (…) Fiquei convencido de que não havia motivos de intranquilidade”, contava o Correio da Manhã no dia 23 de setembro.

Naquela época, os especialistas ainda estavam discutindo se os primeiros casos no Brasil eram realmente da gripe espanhola ou da gripe comum. O próprio Seidl chegou a declarar que a gripe espanhola era uma simples gripe.

Declaração de Carlos Seidl publicada pelo Correio da Manhã — Foto: Reprodução

“O Carlos Seidl defendia a tese de que a gripe que estava começando a graçar no Brasil e principalmente no Rio era a gripe comum. Ele afirmava que existia a gripe espanhola, que era extremamente violenta, só que ela estava graçando fora do Brasil: na Europa, na África”, explica a historiadora Liane Bertucci, da UFPR, especialista no assunto.

A dificuldade de implementar o isolamento social gerou controvérsia na classe médica. Alguns diziam que era praticamente impossível impedir que a gripe se alastrasse.

“Eles (especialistas da época) diziam o seguinte: o contágio da gripe é tão rápido, violento e absurdo que quase não dá para você isolar completamente uma cidade, um porto, durante todo esse tempo de forma absoluta”, afirma ela.

Isolamento social era visto com olhar crítico por especialistas na época da gripe espanhola — Foto: Reprodução

Em 11 de outubro, Seidl criticou o isolamento social ao Correio da Manhã. Naquele dia, eram 440 doentes no Rio. Três dias depois, já eram 20 mil.

“O Rio de Janeiro tinha aproximadamente 914 mil moradores. A Gripe Espanhola, segundo dados oficiais, vai atingir cerca de 600 mil pessoas”.

No século passado, a cidade também construiu unidades de saúde provisórias, como os hospitais de campanha de hoje. Dias antes, os jornais da época relatavam a falta de colchões na Santa Casa da Misericórdia, de remédios para doentes e até de coveiros para enterrar os doentes.

À espera da vacina, as pessoas apostavam em tratamentos alternativos — sem comprovação científica.

“A gente vai ter limão, canela, chá de goiabeira, vaselina mentolada para colocar no nariz. O quinino, que era para controlar a malária, a febre. Recomendaram literalmente que as pessoas tomassem uma quantidade muito pequena de quinino porque poderia, no condicional, ajudar o organismo a reagir ou baixar a febre. O problema é que as pessoas começaram a abusar do quinino, tomava uma grama e caía na rua, porque afeta o estômago”.

Em 15 de novembro, o Correio da Manhã publicou o balanço final de mortos na cidade, de quase 15 mil.

A historiadora Liane Bertucci diz que, por ter ocorrido em meio à Primeira Guerra, a gripe espanhol foi chamada de “a pandemia esquecida”. Em meio à pandemia de coronavírus, ela voltou a ser lembrada.

“A História é feita e refeita a partir de demandas da atualidade. Então a gente olha pro passado no sentido de não tentar achar solução, mas encontrar pistas e fazer questionamentos de como podemos agir hoje. Nesse contexto que a gripe vai começar a ser motivo de estudo de profissionais”, afirma.

Venceslau Braz, presidente da República durante a gripe espanhola, colheu informações preocupantes do enfrentamento à doença no Rio — Foto: Reprodução

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