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Brasil tem crescimento recorde no 3º tri, mas abaixo do esperado

Especialistas destacam que afrouxamento das medidas de restrição ocorreu de maneira mais rápida e que quarentena foi menos rígida por aqui.

Foto: CNI / Miguel Angelo

Por Camila Moreira – SÃO PAULO (Reuters) – A indústria, os serviços e os gastos das famílias impulsionaram a economia do Brasil a uma expansão recorde no terceiro trimestre de 2020, mas ainda insuficiente para recuperar as perdas vistas no ápice da pandemia no país.

O Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil cresceu 7,7% no período de julho a setembro na comparação com os três meses anteriores, de acordo com dados divulgados nesta quinta-feira pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

O desempenho foi o melhor desde o início da série, em 1996, e veio depois de contração de 1,5% no primeiro trimestre e de 9,6% no segundo, quando as medidas de contenção contra o coronavírus paralisaram a atividade de ponta a ponta no país.

O ritmo da economia passou a ganhar força no final do segundo trimestre, depois de ter atingido o fundo do poço em abril, conforme as empresas foram reabrindo após medidas mais rígidas de isolamento.

Entretanto, as consequências da pandemia ainda ficam claras quando se olha para o recuo de 3,9% do PIB no terceiro trimestre na comparação com o mesmo período de 2019. Além disso, a economia do país se encontra no mesmo patamar de 2017, com uma perda acumulada de 5% de janeiro a setembro em relação ao mesmo período de 2019.

Tanto o resultado na margem quando na comparação anual vieram mais fracos do que as expectativas em pesquisa da Reuters, de crescimento de 9,0% na comparação trimestral e de recuo de 3,5% sobre um ano antes.

INDÚSTRIA E GASTOS

No terceiro trimestre, o destaque do lado da produção ficou para o aumento de 14,8% na Indústria, notadamente a alta de 23,7% no setor de Transformação.

O setor de Serviços –que tem o maior peso na economia, foi o mais afetado pelo isolamento social e ainda apresenta as maiores dificuldades para retornar ao nível pré-pandemia– também teve forte desempenho, com expansão de 6,3%.

“Mas (serviços) não recuperou o patamar do primeiro trimestre, porque houve uma queda tanto na oferta quanto na demanda. Mesmo tendo sido retiradas as restrições de funcionamento, as pessoas ainda ficam receosas para consumir”, explicou a coordenadora de Contas Nacionais do IBGE, Rebeca Palis.

Por outro lado, a Agropecuária registrou retração de 0,5% no terceiro trimestre sobre os três meses anteriores, o que se deveu, segundo ao IBGE, a um ajuste de safra. O setor ainda apresenta crescimento no acumulado do ano, de 2,4%, contra quedas de 5,1% da Indústria e 5,3% dos Serviços.

Do lado das despesas, o Consumo das Famílias teve aumento de 7,6% sobre o segundo trimestre, enquanto o Consumo do Governo subiu 3,5%.

Já a Formação Bruta de Capital Fixo (FBCF), uma medida de investimento, cresceu no período 11,0%, num desempenho, entretanto, relacionado à base de comparação muito baixa, já que no segundo trimestre a queda foi de 16,5%.

“No acumulado do ano, a queda (da FBCF) é de 5,5%. E o país ainda tem investimento em equipamentos importados, e, como o dólar está alto, influencia para baixo”, completou Palis.

Em relação ao setor externo, as Exportações de Bens e Serviços tiveram queda de 2,1%, enquanto as Importações caíram 9,6% em relação ao segundo trimestre de 2020, em resultados também influenciados pelo câmbio.

“Retomada”

Ainda que o Brasil tenha mostrado um ritmo de recuperação similar ao das grandes economias, o volume de estímulos e de ajuda do governo por aqui foi bem superior ao desembolsado por países emergentes e até mesmo desenvolvidos no combate do coronavírus.

A resposta do governo para a crise ajudou a evitar um tombo ainda maior da economia em 2020 e garantiu algum alívio para empresas e trabalhadores que se viram de uma hora para a outra sem renda. Mas, sob o aspecto sanitário, o Brasil aparece como o segundo país com maior número de mortes por Covid-19 no mundo e o terceiro em número de casos confirmados, segundo monitoramento da Universidade Johns Hopkins.

“Exatamente pelo fato da pandemia estar sendo tão mal combatida no Brasil sob o ponto de vista de saúde, isto está forçando uma reação mais forte em termos de intervenção de gasto do governo. Então fica um resultado um pouco enganador. O PIB acabou caindo menos por aqui porque tem este estimulante artificial”, afirma Fernando Veloso, pesquisador do Ibre/FGV.

Na avaliação do economista, à medida que os programas de auxílio forem encerrados, as consequências da ineficácia no combate à pandemia na trajetória de recuperação da economia brasileira ficarão mais evidentes.

“A ineficácia vai cobrar um preço muito alto. Não agora de imediato, mas no ano que vem porque não tem como estender esses auxílios todos, e com esse combate ruim da pandemia o mercado de trabalho não vai se recuperar bem também. A taxa de desemprego já está subindo, a informalidade também deve voltar com força, então isso impede que outros mecanismos econômicos, principalmente o investimento privado, substituam o auxílio emergencial que vai acabar”, avalia.

Os gastos do governo anunciados para combater os efeitos da pandemia já somam R$ 615 bilhões, segundo o Tesouro Nacional. Levantamento do Banco Central, a partir de dados do FMI (Fundo Monetário Internacional), mostra que as medidas de estímulo fiscal direto anunciadas no Brasil equivalem a 9,4% do PIB, o dobro da média dos países emergentes e inferior apenas ao de países como Japão (16,2% do PIB), Canadá (12,4%) e EUA (12,2%).

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