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POLÊMICA

Julgamento de Carol Solberg ocorre hoje e pode ser um divisor no esporte

Talita e Carol Solberg

O protesto pol√≠tico de Carol Solberg, que gritou ‚ÄúFora, Bolsonaro‚ÄĚ em entrevista ao vivo ap√≥s conquistar a medalha de bronze na primeira etapa do Circuito Brasileiro do V√īlei de Praia nesta temporada, em Saquarema (RJ), reacendeu o debate sobre as manifesta√ß√Ķes de atletas brasileiros em causas pol√≠ticas e sociais.

Para al√©m das quest√Ķes jur√≠dicas, discute-se a possibilidade de o ato da jogadora servir como incentivo para mais esportistas emitirem suas opini√Ķes, no campo de jogo ou fora dele, e a flexibiliza√ß√£o das regras que pro√≠bem esse tipo de conduta nos campeonatos.

Segundo artigo presente no regulamento do Circuito Brasileiro de V√īlei de Praia, ‚Äúo jogador se compromete a n√£o divulgar, atrav√©s dos meios de comunica√ß√Ķes, sua opini√£o pessoal ou informa√ß√£o que reflita cr√≠ticas ou possa, direta ou indiretamente, prejudicar ou denegrir a imagem da CBV e/ou os patrocinadores e parceiros comerciais das competi√ß√Ķes‚ÄĚ.

O pr√≥prio subprocurador do Superior Tribunal de Justi√ßa Desportiva (STJD) do v√īlei que denunciou Carol Solberg com base nos artigos 191 (deixar de cumprir, ou dificultar o cumprimento de regulamento, geral ou especial, de competi√ß√£o) e 258 (assumir qualquer conduta contr√°ria √† disciplina ou √† √©tica desportiva n√£o tipificada pelas demais regras) do C√≥digo Brasileiro de Justi√ßa Desportiva (CBJD) entende que a a√ß√£o dela pode ser um divisor de √°guas no esporte.

O julgamento ocorre nesta terça-feira (6/10), às 18h, e ela será defendida pelo presidente da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), Felipe Santa Cruz. A atleta pode ser multada entre R$ 100 e R$ 100 mil e ser vetada de competir por até seis partidas, além de suspensão de 15 a 180 dias ou advertência.

O subprocurador √© alinhado √† posi√ß√£o da atleta, se declara antifascista e, nas redes sociais, compartilha publica√ß√Ķes contra o governo e a favor da democracia. Recentemente, postou uma foto em seu perfil no Facebook em que aparece usando uma m√°scara preta com os mesmos dizeres que ela bradou ao vivo: ‚ÄúFora, Bolsonaro‚ÄĚ. Mas promete pedir pena m√°xima para a jogadora por entender quebra de regulamento das regras da modalidade.

‚ÄúEsse debate √© extremamente salutar para a democracia e pode estabelecer um marco sobre manifesta√ß√Ķes de atletas em arenas de jogo. Deve servir como um precedente para os pr√≥ximos casos e vai afastar totalmente qualquer d√ļvida sobre o assunto, o que √© muito salutar para o esporte, para as competi√ß√Ķes e, principalmente, para a democracia‚ÄĚ, aponta o subprocurador Wagner Vieira Dantas.

No Brasil, por uma s√©rie de fatores, que v√£o desde a quest√£o cultural, at√© o medo de repres√°lias e de sofrer puni√ß√Ķes de clubes e associa√ß√Ķes, h√° poucos atletas que se posicionam, especialmente nas arenas de jogo, sobre pol√≠tica e pautas sociais, como a defesa dos direitos humanos e o combate aos preconceitos. Carol, portanto, faz parte de uma minoria que n√£o quer permanecer calada.

‚ÄúA manifesta√ß√£o da Carol n√£o √© pol√≠tico-partid√°ria, que n√£o deve ser feita em campos de esporte. Foi uma manifesta√ß√£o que tem a ver com a defesa dos direitos humanos e da civiliza√ß√£o. N√£o √© propaganda de um candidato ou de um pol√≠tico determinado. Trata-se da defesa dos valores da Constitui√ß√£o, que √© mais importante que qualquer regulamento de competi√ß√£o‚ÄĚ, opina Renato Janine Ribeiro, cientista pol√≠tico e professor de √Čtica e Filosofia Pol√≠tica da USP, e ex-ministro da educa√ß√£o do governo Dilma Rousseff.

‚ÄúO esporte sempre vai manifestar aspectos pol√≠ticos, a demonstra√ß√£o de sua diversidade, de suas tens√Ķes e diferen√ßas. Os atletas deveriam manifestar apoio a Carol, independentemente da defesa de seus pontos de vistas. √Č uma defesa √† liberdade de express√£o‚ÄĚ, refor√ßa Rodrigo Monteiro, professor de Ci√™ncias Sociais da Universidade Federal Fluminense (UFF).

As entidades que regem o esporte brasileiro raramente apoiam manifesta√ß√Ķes de atletas, ao contr√°rio do que ocorre em outros pa√≠ses. Nos Estados Unidos, por exemplo, a NBA, principal liga de basquete do mundo, ofereceu suporte √† ideia dos jogadores de paralisar o campeonato em apoio aos protestos antirracistas no pa√≠s. Agora, √© poss√≠vel que o gesto da jogadora de v√īlei de praia impulsione esportistas a se expor e provoque a reformula√ß√£o de regras das competi√ß√Ķes.

‚ÄúPossivelmente a maior parte dos atletas n√£o tem consci√™ncia ou eles n√£o pensaram em protestar. √Č importante um atleta quebrar esse muro do sil√™ncio. O que ela fez deveria ser feito por todos‚ÄĚ, sugere Janine Ribeiro.

‚ÄúO atleta brasileiro dificilmente se expressa e isso √© muito negativo. N√£o que o atleta tenha a obriga√ß√£o de se expressar. Isso √© uma quest√£o pessoal. Mas eles, por terem uma penetra√ß√£o muito grande na sociedade e serem seguidos por diversas pessoas nas redes, s√£o formadores de opini√£o. Parece que alguns vivem em bolhas e at√© mesmo em outros mundos. Eles poderiam muito bem emitir opini√Ķes e serem mais ativistas, como est√£o sendo os atletas da NBA. O que eles est√£o fazendo pelo racismo l√° √© emblem√°tico. Falta isso aqui no Brasil‚ÄĚ, analisa Rodrigo Falc√£o, psic√≥logo e mestre em Psicologia do Esporte.

Uma das raz√Ķes de n√£o haver uma exposi√ß√£o t√£o grande √© o receio de sofrer repres√°lias, o que tamb√©m ocorre em outros pa√≠ses. Se a NBA hoje apoia protestos antirracistas, h√° ligas e entidades que v√£o no caminho contr√°rio, como a Federa√ß√£o Internacional de Automobilismo (FIA), que est√° tentando proibir os protestos de Lewis Hamilton contra a discrimina√ß√£o racial. No GP da Toscana, na It√°lia, o piloto da Mercedes vestiu uma camiseta, no p√≥dio, com os dizeres: ‚ÄúPrendam os policiais que mataram Breonna Taylor‚ÄĚ. Os policiais foram atr√°s de um ex-namorado da jovem negra de 26 anos no Kentucky, e, mesmo ela sendo inocente, a mataram com oito disparos.

A FIA imp√īs novas regras com o objetivo de impedir manifesta√ß√Ķes durante a cerim√īnia de premia√ß√£o, na qual os pilotos de F-1 n√£o v√£o poder vestir outra roupa que n√£o seja o macac√£o de corrida. No entanto, o hexacampe√£o mundial, √ļnico negro da modalidade, j√° avisou que n√£o mudar√° sua postura em defesa dos direitos humanos e contra o racismo.

No caso de Carol, al√©m da den√ļncia, a Confedera√ß√£o Brasileira de V√īlei (CBV) repudiou o comportamento da jogadora no mesmo dia de seu protesto e afirmou em nota que vai tomar ‚Äútodas as medidas cab√≠veis para que fatos como esses, que denigrem (foi criticada por usar essa palavra) a imagem do esporte, n√£o voltem mais a ser praticados‚ÄĚ.

A entidade, por√©m, n√£o condenou a conduta de Wallace e Maur√≠cio em 2018. Na √©poca, durante a disputa do Mundial Masculino, os dois jogadores da sele√ß√£o brasileira fizeram 17 ao posarem para uma foto, em alus√£o ao n√ļmero do ent√£o candidato √† presid√™ncia Jair Bolsonaro. Carol n√£o quis se pronunciar depois da den√ļncia. Antes, por√©m, disse em entrevista ao Estad√£o que ‚Äúesse papo de que n√£o se deve misturar esporte e pol√≠tica n√£o d√° mais‚ÄĚ.

Voltando √† d√©cada de 1980, a Democracia Corintiana pode ser um espelho importante para os esportistas da atualidade, sugere Janine. ‚ÄúN√£o era um projeto partid√°rio e introduziu a quest√£o da democracia em um dos clubes mais populares do Brasil‚ÄĚ, lembra o fil√≥sofo sobre o movimento liderado por S√≥crates e Casagrande, entre outros, que lutou pelas Diretas J√° e contra a Ditadura Militar.

Regra 50 da Carta Olímpica
Diante de uma press√£o global por parte do movimento internacional de atletas, conhecido por ‚ÄúGlobal Athlete‚ÄĚ, o Comit√™ Ol√≠mpico Internacional (COI) estuda o relaxamento da regra 50 da Carta Ol√≠mpica, que pro√≠be qualquer protesto pol√≠tico, religioso ou racial nos Jogos Ol√≠mpicos. Os atletas exigem que essa norma seja retirada.

O presidente do COI, Thomas Bach, chegou a dizer que puniria aqueles que protestassem em T√≥quio ano que vem por causa da morte de George Floyd, homem negro asfixiado brutalmente por policiais nos Estados Unidos, e dos manifestos no esporte contra a desigualdade racial, mas depois recuou. Hoje, as manifesta√ß√Ķes s√£o liberadas durante entrevistas nas zonas mistas e no centro de imprensa. Mas ainda n√£o nas arenas esportivas.

Segundo a Global Athlete, a regra 50 da Carta Ol√≠mpica viola os ‚Äúdireitos humanos do atletas‚ÄĚ. Em carta enviada ao COI recentemente, o movimento ressaltou que ‚Äúpor muito tempo os atletas tiveram que escolher entre competir em sil√™ncio ou defender o que √© certo‚ÄĚ e defendeu que o ‚Äúatleta deve ter poderes para usar suas plataformas, gestos e vozes‚ÄĚ. Segundo a entidade, O sil√™ncio da voz do atleta levou √† opress√£o, ao abuso e √† discrimina√ß√£o no esporte‚ÄĚ.

Ligas aut√īnomas
Um dos primeiros a se manifestar recentemente nos esportes dos EUA foi Colin Kaepernick, jogador da NFL, a principal liga de futebol americano do pa√≠s. Na temporada de 2016, ele se ajoelhou durante o hino nacional em protesto contra o racismo. E se recusou a cant√°-lo. A partir do gesto, sua carreira naufragou. Seu contrato foi rompido com o 49ers e as portas da liga se fechou para ele, at√© o mundo ‚Äúmudar‚ÄĚ nessas novas manifesta√ß√Ķes e ele ter novamente os holofotes para si.

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