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LEVANTAMENTO

Covid-19 mata mais que violência e doenças mais letais

A covid-19 matou no Brasil, em três meses, mais do que outras doenças, catástrofes naturais, tragédias e mazelas urbanas, como a violência – problema endêmico no País. Com 50.617 vítimas fatais até este domingo, 21, e com a transmissão do coronavírus em crescimento acelerado, a pandemia se consolida como uma das piores crises sanitárias da história.

O Estadão reuniu dados do Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM), do Ministério da Saúde, de 1996 a 2020, e de catástrofes da humanidade, como guerras, atentados, tempestades, enchentes e outras pandemias e epidemias, para comparar o tamanho da atual tragédia sanitária. O rastro de letalidade da covid-19 supera o deixado por armas de fogo, por acidentes (de trânsito, aéreos e marítimos), por doenças que protagonizaram epidemias recentes na história, como aids e dengue, e até mesmo por enfartes do coração – que integram o grupo de doenças que mais causam mortes no Brasil, as relacionadas ao sistema circulatório, como derrames, AVCs, hipertensão arterial, entre outras.

“E ainda não chegamos nem na metade da covid-19”, afirma o virologista Maulori Curié Cabral. Professor do Departamento de Virologia, do Instituto de Microbiologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), ele afirma que é cedo para um prognóstico de comparações. “Ainda estamos no começo da doença, em uma fase de curva achatada, em que não se sabe quando e como vai acabar. Depois que terminar é que poderemos ver o total de mortes e comparar.”

Descoberta em Wuhan, na China, em dezembro de 2019, a covid-19 chegou ao Brasil provavelmente no fim de janeiro. O primeiro caso de um brasileiro contaminado pelo coronavírus, do tipo Sars-CoV-2, foi confirmado oficialmente em 26 de fevereiro. Em menos de quatro meses meses, mais de 1 milhão de pessoas foram infectadas – equivalente a 0,5% da população brasileira. A primeira morte foi registrada em 17 de março: um morador de São Paulo, de 62 anos, com outros problemas de saúde.

Passados 95 dias desde então, a covid-19 vitimou 50.058 pessoas no Brasil. É mais do que o total de mortes por por algum tipo de isquemia no coração, que incluem enfartes, registradas entre janeiro e maio de 2019: 46,5 mil, segundo dados do Ministério da Saúde.

Covid-19 mata mais que violência, trânsito e tragédias
A violência é um dos problemas sociais que mais preocupam a população, não só pela agressão, mas pelos riscos e imprevisibilidade que envolve. A covid-19 matou nesses 90 dias mais do que as armas de fogo mataram em 2017 inteiro, ano em que houve maior número de ocorrências do tipo nas últimas três décadas: 48,4 mil óbitos (inclui assassinatos e suicídios).

Comparado às mortes decorrentes de acidentes de trânsito, aéreos e navais (30 mil, em 2019), a covid-19 matou quase o dobro. Tantos as mortes por armas quanto os acidentes são classificadas como óbitos motivados por “causas externas” no registro de letalidade no Brasil do Ministério da Saúde. Isto é, não provocadas por doenças.

As causas externas formam o quarto grupo com mais óbitos do País: 140 mil em 2019. Entram na classificação violência policial, agressões, conflitos, explosões, mortes em hospitais por complicações, entre outras. Entre março e junho do ano passado – período aproximado de tempo da epidemia no Brasil –, os óbitos desse grupo somaram 46 mil. Menos do que a covid-19 no mesmo período.

No Brasil, se somarmos os mortos de 17 tragédias recentes, não chegaríamos nem perto do que a covid-19 matou. Juntas, elas vitimaram 3.537 pessoas. A conta reúne os mortos soterrados com os rompimentos de barragens em Brumadinho (2019) e Mariana (2015); os de quatro acidentes aéreos – dois da TAM em Congonhas (1996 e 2007), da Gol (na Serra do Cachimbo, em 2006) e do time da Chapecoense (na Colômbia, em 2016); os de três deslizamentos e das enchentes, no Rio (2011), em Caraguatatuba (1967) e Santa Catarina (2008); os com os desabamentos, incêndios e explosões dos edifícios Joelma (1974) e Andraus (1972), da Boate Kiss (2014), do Gran Circus (1961), da Vila Socó, em Cubatão (1984) e do Plaza Shopping (1996); do naufrágio do Bateau Mouche (1989) e no massacre do Carandiru (1992).

No ano passado, os enfartes do coração provocaram a morte de 116 mil pessoas – um terço do total de óbitos do grupo de doenças do aparelho circulatório. Se isolarmos o total de casos entre janeiro e junho, são 56,8 mil óbitos em seis meses, quantia que a covid-19 deve ultrapassar antes do fim deste mês. Comparando períodos equivalentes (de três meses), a conta mostra que a covid-19 só não matou mais do que todas as doenças do sistema circulatório e do que câncer. Entre março a maio de 2019, por exemplo, morreram 89 mil por doenças do sistema circulatório. Os cânceres mataram 59 mil.

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