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BENDITA LÍNGUA

Na pessoa de, em nome de

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O errado (fora da norma) consegue mais seguidores do que o certo (dentro da norma). Estou falando do uso da língua, mas não é diferente noutros campos das ações humanas. O erro comentado hoje está grassando os discursos de reuniões até chiques.

Se o orador quiser cumprimentar uma pessoa em seu discurso e por ela também os demais membros da categoria, o certo é “Na pessoa da professora Marinês Galhardo, componente desta mesa, cumprimento todos os professores presentes nesta assembleia”. Significado: cumprimenta-se a Marinês e que todas os demais profissionais do magistério se sintam também cumprimentados.

Está errado, está fora da lógica: “Em nome da professora Marinês Galhardo, eu cumprimento os demais professores dessa assembleia”. E se ela quiser cumprimentar por si! Significado: o orador se arvora procurador da professora para cumprimentar as demais”. Esse erro é muito cometido por políticos em seus discursos, revela ignorância linguística.

*Hélio Consolaro é professor de Português e colunista do Regional Press

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Tchutchuca e Tigrão

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Zeca Dirceu e o ministro Paulo Guedes discutiram durante debate sobre a reforma da Previdência

A expressão “Tchutchuca e Tigrão”  foi recentemente usada pelo deputado Zeca Dirceu (PT-PR) ao se referir ao ministro Paulo Guedes num debate sobre a reforma da Previdência na Câmara dos Deputados: a analogia entre a força do “tigrão” e a submissão da “tchutchuca”, usada pelo deputado, provocou um chilique do ministro.

Ela foi criada em 2001 pelos funqueiros do Bonde do Tigrão. Trata-se de palavras da linguagem classificada de chula, usada por pobres, desclassificados. Quem abominou o uso de tais palavras num parlamento tem uma visão elitista da língua, classificando seus elementos de acordo com a classe social que os usa.

Um político, seja ele de qualquer partido, para explicar suas ideias num momento de discussão fervorosa pode usar a linguagem chula, a linguagem que seu povo vai entender. Não pode abusar, mas quando necessário…

 

 

 


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História e estória

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Em português, costuma-se usar a palavra “história” tanto para a narrativa de fatos verdadeiros como para os ficcionais (narrativas inventadas).

Isso não ocorre no inglês, que divide história para fatos reais; estória para fatos ficcionais. O escritor Guimarães Rosa manteve a tradição inglesa ao escrever, quando intitulou o seu  livro de “Primeiras estórias”.

O atual governo quer transformar o 31 de março, quando houve um golpe militar em 1964, ou seja, há 55 anos, em “estória”, coisa inventada.

Esse pessoal do Bolsonaro ignora livros, jornais da época, muita gente morta e perseguida, só porque não concordava com o governo da época. Não se pode transformar a História do Brasil escrita com sangue num conto da carochinha.

 

*Hélio Consolaro é professor de Português

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Erro de português ou da reforma da Previdência?

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O aviso digitado simula certamente um aviso anexado na portaria de algum condomínio. Os erros de digitação e de português foram cometidos para fazer uma crítica indireta à reforma da Previdência que está por vir.

Vamos consertar o erro de digitação: “Precisa-se de diarista que more no serviço”. Brota do novo texto uma incoerência externa: diarista não mora no emprego, só existe tal possibilidade às mensalistas.

Então o verbo seria mesmo “morrer”, porque com a reforma da Previdência projetada para prejudicar o assalariado, uma diarista ia mesmo morrer no serviço, sem experimentar sua aposentadoria.

Se a intenção fosse dizer: “Precisa-se de uma diarista que morre no serviço”, assim mesmo surgiria outro erro de português. O certo seria: “Precisa-se uma diarista que morra no serviço”. O verbo morrer iria para o modo subjuntivo, pois é da segunda conjugação.

SUBJUNTIVO (modo que manifesta uma vontade) do verbo morar: more; do verbo morrer: morra.

Formas corretas:

Precisa-se de uma empregada que more no serviço. Foi digitado um “r” a mais para veicular a crítica.

Precisa-se de uma empregada que morra no emprego. Seria a forma correta, uma crítica direta à reforma da previdência, sem dubiedade e ironia.

 

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Fazer uma chupeta

Professor Hélio Consolaro explica que a língua é um ser vivo em constante evolução, conforme a vontade de seus usuários

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Então, a viatura da polícia não tinha partida. Várias tentativas e nada! Não havia disponível “um fio de transferência de energia automotiva”.

O policial foi a uma fabriqueta nas imediações à procura de tal fio. Chegando lá, só mulheres. E ele pediu:

– Vocês não têm um fio de transferência de energia automotiva?

Entreolharam-se com um risinho maroto, e uma delas perguntou:

– O senhor quer fazer uma chupeta?

E riram. O soldado explicou:

– Isso mesmo. A viatura não tem partida. Eu queria falar chupeta, mas achei chato.

E todos riram.

Vamos pôr o assunto na mesa, caro leitor?

Chupeta é um objeto com ponta arredondada de borracha que se dá a bebês para chupar. Quer coisa mais inocente! Mas também significa sexo oral praticado na genitália masculina.

Como também é “um recurso provisório para dar a partida no motor de um veículo automotor cuja bateria esteja descarregada e que consiste em ligar esta bateria à de um outro veículo em perfeitas condições”.  Chupar energia de outra bateria.

Conclusão: a língua é um ser vivo em constante evolução, conforme a vontade de seus usuários. Os gramáticos e professores de Português são policiais que agem para que o português não se diversifique muito e perca sua condição de código.

*Hélio Consolaro é professor de Português e colunista do Regional Press

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