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Tite pode comemorar gol do Corinthians. Mas não deve

Quem esteve em Itaquera na noite do último sábado, na vitória do Corinthians por 1 a 0 sobre o Santos, notou a espontaneidade e a emoção do momento: ao aparecer no telão da arena, o técnico Tite foi imediatamente ovacionado pelos mais de 30.000 corintianos, que entoaram o grito “Olê, olê, olê, Tite, Tite”. O treinador da seleção brasileira respondeu com acenos, pôs a mão no coração e secou as lágrimas. Em tempos de carência de  ídolos no futebol mundial, Tite e a torcida corintiana proporcionaram um belo exemplo de admiração e gratidão mútuas. O gaúcho, porém, poderia ter evitado um constrangimento minutos depois: ainda tomado pela emoção, celebrou efusivamente o gol de , num gesto compreensível, mas mal recebido por torcedores de outras equipes.

Corintianos se lembraram especialmente do dia em que Tite celebrou, no meio da torcida alvinegra no Pacaembu (pois havia sido expulso), o gol de Paulinho na agoniante vitória sobre o Vasco, na Libertadores de 2012. Desta vez, porém, Tite não é o treinador dos cerca de 30 milhões de corintianos, mas de 200 milhões de brasileiros. E, mais relevante que isso, frequentar estádios deixou de ser lazer e hoje faz parte de suas atribuições como treinador responsável por eleger os 23 melhores do país.

Suas escolhas, inclusive, servem como munição para quem desaprovou sua euforia no meio da torcida. Na convocação para os jogos contra Uruguai e Paraguai, Tite não chamou nenhum atleta de Palmeiras, Santos e São Paulo e convocou o lateral corintiano Fagner – que está longe de viver seu melhor momento. Também chamou Gil, Paulinho e Renato Augusto, com quem trabalhou no Corinthians, e que hoje atuam na fraca liga da China. Escolhas compreensíveis – todos os treinadores da história da seleção reservaram lugares para seus chamados “homens de confiança” – e que não abalam em nada a credibilidade construída por Adenor Leonardo Bachi em quase 40 anos de futebol, como jogador e técnico. Mas é justamente por se tratar de alguém com lisura incontestável que Tite poderia evitar tal constrangimento.

Outro fato causou certo mal-estar: no momento de êxtase, Tite abraçou o amigo Alessandro Nunes, que foi seu capitão nos momentos de glória no Corinthians e hoje é gerente de futebol do clube. Nunes é também um dos cotados para assumir o lugar de Erasmo Damiani, coordenador de base da seleção brasileira que recentemente foi demitido, junto com o treinador Rogério Micale

– que, por sua vez, confessou mágoa com Tite pela falta de apoio após o ouro olímpico. Tite sabe muito bem “driblar” a politicagem do futebol – nem mesmo a companhia de Marco Polo Del Nero abala sua imagem – e deveria seguir fazendo o mesmo.

Durante a convocação da última sexta, o treinador deixou clara sua tentativa de desvincular seu nome do Corinthians. Foi perguntado em diversas oportunidades sobre a emoção de retornar a Itaquera e, diante da insistência dos jornalistas, admitiu a emoção, mas disse que seria “respeitoso ao São Paulo, ao Palmeiras e ao Santos” e convocou todas as torcidas a apoiar a seleção. Ele certamente será homenageado ainda mais pelos corintianos no dia do jogo contra o Paraguai e não há problema algum em se emocionar, bater no peito e agradecer. Até mesmo os torcedores rivais aprenderam a admirar Tite, tanto que o coro “Olê, olê, olê, Tite, Tite” foi ouvido em outros estádios por onde a seleção passou e virou até assunto no site da Fifa. Mas o cargo de técnico da seleção exige uma espécie de decoro e celebrar o gol do ex-clube é algo que pode e deve ser evitado numa nova oportunidade.

 

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